Mostrar mensagens com a etiqueta vidas emprestadas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta vidas emprestadas. Mostrar todas as mensagens

6.7.07

A despedida-Parte V

EPÍLOGO
Termino hoje a minha série de estórias curtas. Obrigado a todos os que tiveram a generosidade de as ler e de emitir, de uma forma ou de outra, a sua opinião. Foi importante para mim. Quando me propus escrever sobre a despedida, nas suas várias formas possíveis e colocando-me sempre em diferentes peles, fi-lo sem pretensões literárias maiores, mas foi, assumo, um exercício de estilo. É um tema que provoca desconforto. Comprovei-o através de muitas das vossas reacções. Em momento algum quis ser original, afinal já (quase) tudo foi dito e escrito, mas cada uma delas, mal ou bem, foi sempre contada do meu jeito. É isso que me interessa: contar estórias do meu jeito. Aceito, até porque foi intencional, que, de todas elas, a mais fantasiosa é a primeira, A Maldição. Mas há ali um fundo de verdade. A figura do predador sexual fascina-me e repugna-me. Assim como os anjos negros e os vampiros. A analogia não foi, por isso, mera coincidência.


V
A CULPA

(Trilha sonora: Goodbye my Lover, por James Blunt, escutar aqui)


Não foi fácil convencê-la a arranjar-se para este jantar. Não a levo a mal. No seu lugar, nem sei se teria feito sequer o esforço de vir. Mas ela sempre foi muita mais generosa do que eu. Estou nervoso. Tenho as mãos húmidas do suor. Sinto-a igualmente irrequieta. Apercebo-me que tem estado a evitar encarar-me nos olhos desde que aqui chegámos. Não posso deixar de me recordar do momento, há mais de dez anos, em que, neste mesmo restaurante, a pedi em casamento. Lembro-me que tremia de antecipação e que só não acabei no chão à procura do anel de noivado porque, felizmente, o maître estava atento e salvou-me do embaraço. Foi uma das noites mais felizes da minha vida. Talvez por isso, fiz questão de aqui voltar com ela. Ignoro se terá ideia do que se passa, de que este será, porventura, o nosso último jantar. Enquanto marido e mulher, pelo menos. É claro que deve desconfiar, afinal, que mulher não estranharia não ser procurada na cama há mais de dois meses? Isto para não falar nas desculpas, cada vez mais esfarrapadas, que tenho inventado para justificar as minhas constantes ausências. Vendo bem, agora que penso nisso, há muito que ela deixou de me cobrar seja o que for…Olho para ela. Reparo que não tem mais o frescor de outrora, mas é hoje, sem dúvida, uma mulher bem mais interessante do que era há dez anos. Comovo-me com a visão do seu vestido preto decotado e a forma como este lhe realça a pele cor de azeitona. Conheço cada uma daquelas sardas que lhe descem do pescoço aos seios. Os seus olhos continuam esquivos. Faz tempo que não os desprega da ementa, que, a esta altura, já deve saber de cor. Mas não preciso disso para saber o que lhe vai na alma. Quero que este jantar, apesar do óbvio confrangimento que se abateu entre nós, corra o melhor possível. Que fique, se possível, como uma boa lembrança. Mas esta noite, quando formos para casa, eu não vou subir. Trago na mala do carro algumas mudas de roupa, que ali pus sem ela perceber, para os próximos dias. O resto fica para depois da poeira assentar. Já ensaiei mil vezes o que lhe vou dizer quando estivermos a sós, mas temo ser atraiçoado pela emoção e engasgar-me na hora. Serei eu capaz de lhe fazer ver que ela foi a primeira e a única mulher da minha vida? Que não vi nela uma tábua de salvação, muito menos uma saída de conveniência, mas tão-só alguém, a única mulher nunca é demais dizê-lo, por quem fui capaz de me apaixonar? Que lhe estarei eternamente grato por me ter proporcionado a experiência de ser pai? E ela, será ela capaz de acreditar quando lhe jurar que nos imaginei a envelhecer juntos? Partilhámos tanta coisa e, ainda assim, não consigo prever qual será a sua reacção… Às vezes, quase desejo que ela me agrida, que me insulte. Acho que só assim seria capaz de sentir um pouco menos de culpa e de remorso. Não estou a trocá-la por outra mulher, mas foi nos braços de outro homem que me entreguei por completo como nunca o consegui fazer com ela. Foi essa a minha maior traição. Sei-o bem. Será ela capaz de me perdoar, passada a mágoa? E eu, serei eu capaz de me absolver um dia?

5.7.07

A despedida-Parte IV

The Pillow Book, de Peter Greenaway

IV
A AUSÊNCIA

(Trilha sonora: Against all Odds, por Phil Collins, escutar aqui)


Cinco meses, sete dias e muitas horas, quase todas contadas ao minuto, desde que saíste por aquela porta. Quero que saibas que não espero resposta a esta carta. Há muito que perdi a esperança de te ver entrar de novo por esta mesma porta. Mas continuo a sentir a tua falta. Continuo a não ser capaz de superar a tua ausência. Sei que não suportas a minha carência, a minha falta de amor-próprio ― em parte, acho que foi por isso que me deixastes, sentiste-te sufocado pelo peso do meu amor ―, mas eu não sei ser de outra forma. Não contigo, pelo menos. Não te iludas. É claro que não tenho estado sozinho este tempo todo. Tentei, como me disseste, ou melhor, me ordenaste, seguir com a minha vida. Mas que posso fazer se é a tua boca que quero na minha, se é a tua mão que procuro quando alguém me toca? Pergunto, tantas vezes que já lhe perdi a conta, onde foi que errei…Quando, em que momento, eu não percebi que o meu amor por ti deixou de ser suficientemente grande para nós dois? O meu pudor não me impede de te confessar que, nas alturas em que o teu afastamento se me torna insuportável, saio, desvairado, à tua procura nos lugares que costumávamos frequentar juntos, sempre na esperança de te encontrar. Corro o risco, bem o sei, de te ver nos braços de alguém que não eu…. Mas acho que prefiro isso à ideia de nunca mais te ver. Às vezes, já com o dia quase a romper, fico às voltas na cama e não resisto ao impulso de agarrar no telefone e te ligar. Só queria ouvir a tua voz mais uma vez, mas maldigo a hora em que, do outro lado da linha, poderei escutar outra voz que não a tua … De todas as coisas que deixaste para trás, e que me ajudam a manter viva a tua presença nesta casa, é no jardim que me sinto mais perto de ti. Ainda hoje me surpreendo como, logo tu que nunca tiveste paciência para o prazer não imediato, te empenhaste a fundo, meses a fio, a dar-lhe forma. Estou certo que começou por ser (mais) um capricho teu, mas, no fim, acho que o mexer na terra te deixava feliz e menos tenso. Tenho-me esforçado para o manter tal como o deixaste, mas não possuo a dedicação do fiel jardineiro*. Ainda assim, gostaria que estivesses cá para ver as primeiras tulipas, narcisos e frésias a anunciar a chegada da Primavera. Já te disse que sinto a tua falta? Preciso dizê-lo, já que não me deste tempo para muito mais quando te foste embora. Por isso, quando leres esta carta ― e eu prefiro acreditar que a vais ler e não jogá-la directamente no lixo ―, quero que saibas que continuo aqui, no mesmo lugar onde me abandonaste faz hoje cinco meses, sete dias e muitas horas. Horas que conto ao minuto.

Com amor,

P.

* Referência ao filme O Fiel Jardineiro (The Constant Gardener, no original), do brasileiro Fernando Meirelles, com Ralph Fiennes e Rachel Weisz.

4.7.07

A despedida-Parte III


III
A PARTIDA

(Trilha sonora: Breathe Me*, por Sia, escutar aqui)


Acreditei, ou quis acreditar, que seria capaz de deixar tudo para trás e ir viver um grande amor. A família, os amigos, a carreira, a casa, os livros, o gato, a cidade onde nasci e vivi, e tantas outras coisas que já fazem parte do meu código genético. Cedi ao impulso de me meter num avião para atravessar o Atlântico quando senti que não podia mais adiar a consumação de uma paixão nascida não da convivência diária, mas sim de momentos fugazes roubados à rotina de cada um de nós nos últimos meses. Quando ia ao seu encontro, quase rezei para estar enganado. Teria sido tão mais fácil… Mas, vê-lo, abraçá-lo só veio confirmar o que eu já sabia, afinal, esperei por alguém como ele a minha vida toda. Claro que houve uma estranheza inicial, que tivemos de quebrar aos poucos, mas depressa alargámos a sintonia espiritual que já vinha de antes a uma comunhão maior. Sacrifiquei as minhas férias de Verão para passar um mês inteiro com ele. Não me arrependo. Como poderia eu arrepender-me se fui feliz como nunca antes o fora? Durante esse tempo, pude saborear o seu beijo e mapear o seu corpo de forma a saber onde me encaixar na hora de dormir, mas vivi também a sua vida, fiz dos amigos dele os meus, da sua família a minha, da sua casa a minha. Na verdade, eu tentei. Tentei, mas não consegui. Os dias foram passando e calámos a ansiedade de se estar a aproximar a data da minha partida. Foi uma espécie de pacto tácito que fizemos para não turvar a felicidade dos últimos instantes. Não ousámos falar do futuro. Percebi, desde o primeiro minuto, que a vida dele era ali. Acreditei, ou quis acreditar, que a minha também poderia ser ali se eu me esforçasse. Pedi um milagre de amor. Chegou a hora marcada. A caminho do aeroporto, não trocámos palavra. Deixámo-nos ficar de mãos dadas no banco de trás do táxi, alheios aos olhares de reprovação que o motorista nos lançava através do espelho retrovisor. Tirei sozinho as malas da bagageira do carro. Ele limitou-se a seguir-me até ao check-in. Cabisbaixo. Sempre em silêncio. Quando comecei a vê-lo engolir em seco, temi que, a qualquer momento, rompesse num pranto. Conteve-se. Eu contive-me. Chegámos ao portão de embarque. A última fronteira. Não podíamos mais adiar aquele abraço de despedida. Abraçámo-nos então. Não sei quanto tempo estivemos assim, apertados um contra o outro, com os nossos corações aos pulos, mas pareceu-me uma pequena eternidade. Acho que nem demos pelos outros passageiros, que eram obrigados a desviar-se. Fui eu que o afastei. Fi-lo olhar para mim e prometer-me que não seria um adeus, mas, tão-só, um até breve. Ele acenou-me que sim, mas as lágrimas escorriam-lhe já pelo rosto. Esforçava-se, em vão, para não soluçar. Foi a minha vez de engolir em seco. Desprendi-me da sua mão e fui. Quando me voltei para trás, para o ver uma última vez, estava escrito no seu rosto. Ele sabia, como eu sabia, que não haveria amanhã.

* Fui buscar esta música à sequência final do seriado Six Feet Under (Sete Palmos de Terra em Portugal), a que ainda hoje não consigo assistir sem emoção. Podem ver ou rever aqui.

3.7.07

A despedida-Parte II


II
A LEMBRANÇA

(Trilha sonora: Jesus to a Child, por George Michael, escutar aqui)


Encontro-me sozinho no teu apartamento, que foi a nossa casa por pouco mais de um ano de vida em comum. A tua família concedeu-me o especial favor de me deixar ficar aqui até eu arranjar um outro lugar para morar. Magnânimos como sempre, deixam-me até levar, e disseram-mo com estas exactas palavras, “alguns objectos pessoais teus, desde que, claro, nenhum deles constitua uma alienação do teu património”! Quando ouvi isto, dito logo após o teu funeral, a que tive de assistir na qualidade de “amigo” para salvaguardar as aparências ― como se todos ali não estivessem cansados de saber que éramos muito mais do que amigos, éramos amantes! ―, estive a ponto de perder as estribeiras, mas contive-me. Seja como for, nada disso importa agora que te foste. Olho à minha volta e ainda te vejo sentado na mesa da cozinha, a roer uma maçã verde, enquanto eu cozinho o jantar e tu me contas como foi o teu dia; consigo também, sem esforço algum, sentir o perfume da Aqua di Parma, que ficava a pairar no ar depois de fazeres a barba logo pela manhã. A tua gargalhada sonora continua a encher a casa… parece até que te estou a ouvir rir, pela enésima vez, com as tropelias dos Monty Phyton… Por falar nisso, onde é que andarão esses DVD’s? Não me posso esquecer de os levar, foram um presente meu. Há também a camisola de gola alta em caxemira, que te dei no último Natal… Como eu gostava de te ver com ela, mas tu resistias sempre a vesti-la… Achavas que te dava um ar demasiado emproado, hehehehehehe. Pensei também em levar os vários porta-retratos, que espalhámos pela casa, com fotografias nossas. Imagino que seja a última coisa que eles desejam encontrar aqui quando tomarem posse do imóvel. Gostaria ainda de poder levar comigo outras coisas, pois cada uma dela é um pedaço de ti e da nossa história juntos… Mas, desde que te foste, naquela noite maldita em que estive quase para me meter contigo no carro ― e como me mortifico até hoje por não o ter feito! ―, perdi o ânimo para lutar contra o mundo. Quero chorar, mas já não consigo. Esgotei as minhas lágrimas. A vida dá, a vida tira. Demorei muito a conformar-me, mas, vejo hoje que não são estas coisas que me vão ajudar a manter a tua presença viva. Quando fechar de vez aquela porta, levo comigo algo que jamais alguém me poderá tirar, que é a tua lembrança. E a tua lembrança é como um livro. Um livro que eu pretendo ler e reler muito devagar.

2.7.07

A despedida-Parte I

Anjo Caído, Fábio Góis

PRÓLOGO
Não gosto de despedidas. Mas gosto de escrever sobre elas. Gosto do que trazem à tona. Imaginei cinco estórias curtas para falar de algo que está muito presente nas nossas vidas, mas com o qual nem sempre sabemos lidar da melhor forma. Dizer adeus, seja em que situação for, não é fácil. Nunca é. Para cada uma dessas estórias, que começo hoje a publicar à razão de uma por dia durante toda esta semana, fui buscar uma música. Se puderem, quando as lerem, não deixem de escutar a respectiva trilha sonora. Foi assim que idealizei estes cinco momentos.


I
A MALDIÇÃO

(Trilha sonora: Gabriel, pelos Lamb, escutar aqui)


Conheci o Gabriel numa festa. Até aí nada de novo. Perdi já a conta aos muitos rapazes iguais a ele que seduzi nas orgias regadas a champanhe e a cocaína que insisto em frequentar, apesar de não gostar nem de uma coisa, nem de outra. Mas é o meio onde sempre me movi, qual ave nocturna, e vícios antigos não se perdem de um dia para o outro. Confesso: quando ele se começou a insinuar junto a mim, não lhe prestei grande atenção, mas, ao aperceber-me da luxúria que acendia nos meus amigos, resolvi olhar melhor. Para mais, estava particularmente enfadado naquela noite e o facto de ele me preferir mexeu também com a minha vaidade. Foi assim que o levei dali para fora e o arrastei para a minha cama. Apesar de algo inexperiente, pelo menos assim me pareceu de início, devo reconhecer que me fez o melhor broche dos últimos tempos. Não sei se por isso, se por outra coisa que não me interessa aprofundar, o certo é que, contrariando as minhas regras, o fui deixando ficar. Faz agora uma semana. Dorme. Posso vê-lo daqui. Percorro com os olhos o seu corpo nu, deitado de bruços. Não preciso de esticar a mão para sentir o arrepio da penugem fina que lhe cobre a pele, nem o toque suave da melena loura desgrenhada. A visão de um anjo caído no negrume dos meus lençóis. Quase sinto a ternura a aflorar, mas trato de a enxotar. Não condiz comigo. Eu sou como Lestat* e a minha cama é uma emboscada aos desavisados. Preciso do sopro de juventude deles, dos homens mais ou menos imberbes que atraio até ali, para manter viva a ilusão de que continuo a ser o mais belo e o mais desejável. Sei, porém, que o tempo, implacável, está a correr. Eu já fui o Gabriel. Quase me apetece abaná-lo e gritar-lhe:
- Rapaz, salva-te enquanto podes. Salva-te de ti mesmo… Não queiras acabar os teus dias como eu!
Reprimo a tempo esse súbito ataque de consciência. Quem quero eu enganar? Por vezes, a solidão, que me atormenta há séculos, mete-se no caminho, mas eu não vacilo. Gabriel tem de partir. Tê-lo ao meu lado, por muito que a ideia me pareça tentadora agora, ser-me-ia insuportável quando me desse conta de que os olhares de cobiça eram dirigidos a ele e não mais a mim. Sou como Lestat e Lestat, o mais belo dos belos, está condenado a viver só.

*Personagem de Entrevista com o Vampiro, de Anne Rice

11.6.07

A redenção

Cena de O Beijo da Mulher Aranha, D.R.


It doesn't hurt me.
You want to feel, how it feels?

You want to know, know that it doesn't hurt me?

You want to hear about the deal I'm making.

You, (If I only could, be running up that hill)

You and me (If I only could, be running up that hill)

And if I only could,
Make a deal with God,

Get him to swap our places,

Be running up that road,
Be running up that hill,
Be running up that building.

If I only could

(Running up that Hill, na versão dos
Placebo)


Ele falava sem pausas para respirar, como sempre fazia, mas eu deixara de o ouvir. A minha atenção tinha sido desviada para uma outra mesa, não muito distante da nossa, de onde eles nos lançavam olhares suspeitos. Fiz um esforço, mas não consegui perceber palavra do que diziam. Nem foi preciso. Há muito que me habituei a ler no rosto dos outros o escárnio e o desdém. Não tive dúvidas, nós éramos o alvo dos seus risos enojados.

Não sei o que me enfureceu mais: se o comportamento daqueles palhaços de merda, se o facto de ele fingir que não era nada consigo. Mantinha-se, aparentemente, compenetrado no seu monólogo e não evidenciava o menor sinal de perturbação ou constrangimento. Tentei detectar na sua expressão, por mais leve que fosse, alguma crispação. Nada. Permanecia impávido. Escusado será dizer que tal constatação ainda me deixou mais irado. Tive de me conter para não ser bruto. Apeteceu-me mandar-lhe um berro, agarrá-lo por um braço e arrastá-lo para bem longe dali, onde ele não pudesse mais me envergonhar. Não o fiz. Não por falta de vontade, mas porque não queria piorar as coisas.

Custar-lhe-ia assim tanto comportar-se como um homem normal? Cansei-me de lhe pedir para ser mais discreto, pelo menos quando está comigo em lugares públicos, mas ele arranja sempre maneira de não me dar ouvidos. Agora mesmo, olho para ele e o que vejo? Um louro demasiado artificial nos cabelos, sobrancelhas depiladas, uma camisa colada ao corpo e os pulsos cheios de fitas e pulseiras de couro. Acho que ele faz de propósito. Acho não, tenho a certeza. Ao contrário de mim, que cedo aprendi a fazer-me respeitar à força da pancada, ele, incapaz de disfarçar, decidiu mostrar-se ao mundo como o mundo o quer ver. É o maricas, a aberração que desejam? Então tomem lá os trinados em falsete, as poses fatais e o revirar de olhos decalcados de uma diva do cinema mudo…

Sempre o conheci assim. Já o vi, ao longo dos últimos anos, passar pelas piores humilhações, ser insultado na rua e até agredido, mas ele nunca mudou uma vírgula. Sou forçado a dar a mão à palmatória. Não deixa de ser uma forma de coragem. Seja como for, naquele preciso instante, estava fora de mim e quando isso acontece sou incapaz de pensar com clareza. Nisto, ele levantou-se de repente. Deve ter-me perguntado qualquer coisa a que eu respondi só por responder. Só quando ele se encaminhou para o balcão da esplanada, percebi que a situação tinha escapado ao meu controlo. Ainda tentei impedi-lo, mas não fui a tempo.

Os homens da outra mesa, três, todos nos seus vinte e muitos, interromperam por instantes a chacota. Não devem ter previsto que ele, logo ele, tivesse o desplante de passar quase rente à mesa deles, com um ligeiro, mas inequívoco, gingado de ancas. Estava a provocá-los. Não só ele se dera conta do ocorrido, como estava agora a dar-lhes o troco. Do seu jeito meio torto, mas estava. Debaixo da sua aparência frágil escondia-se um homem sofrido que, quando acoado, sabia mostrar-se corajoso. Quantas vezes, na boate onde ele trabalhava como travesti, enfrentou machões com o dobro da sua força… Infelizmente, não era aquela bravata que os iria calar. Hesitei. Fiquei sem saber se me deveria ou não antecipar.

Ele fez o pedido no balcão e voltou com duas bebidas num tabuleiro. Passada a surpresa inicial, haviam retomado a galhofa. Um deles, para gáudio dos outros dois, resolveu lançar um “Ui, ui” quando ele se preparava para passar de novo junto à mesa. Por momentos, pensei que ele fosse parar e despejar as bebidas nas fuças dos cabrões. Pus-me alerta. Mas foi então que um deles estendeu a perna. Sem que tivesse tempo de lhe acudir, vi-o cair desamparado no chão. Estatelou-se aos pés da mesa, entre os cacos dos copos partidos. As poucas pessoas que se encontravam na esplanada àquela hora levantaram os olhos do que estavam a fazer. Por alguns segundos, ninguém se mexeu; ninguém pronunciou um “ai”. Até que o ar foi cortado por uma gargalhada que jamais vou esquecer por muitos anos que viva. Ele permanecia prostrado no solo. Cego pela fúria, não o ajudei a levantar-se. Fui direito ao que acabara de se rir e, antes de lhe dar sequer tempo para reagir, enfiei-lhe um valente pontapé no peito, que o atirou a ele e à cadeira ao chão.

Não me recordo muito bem do que se seguiu. Como sempre acontece quando me envolvo numa rixa, solto a fera enjaulada que há em mim e passo a agir por puro instinto. Devo ter batido bastante, mas, a avaliar pelo estado em que ficou a minha cara, é bem possível que tenha apanhado muito mais. Afinal, eles eram três e eu apenas um. Aliás, poderíamos termo-nos morto ali que ninguém levantou um dedo para apartar a briga. No final, só me lembro dele a puxar-me por um braço. Como um cão ferido numa luta, que perde o olfacto e se vira ao próprio dono, também eu não o reconheci de imediato e quase lhe acertei um soco. Apenas então o dono do café, visivelmente transtornado, apareceu aos gritos, ordenando que nos fossemos todos embora, caso contrário chamaria a polícia! Estremeci de raiva, quis revidar, mas sentia já o sangue a escorrer-me pela cara. Tentei falar, mas tinha a boca dormente e empapada. Combalido, permiti que ele me arrastasse dali para fora.

A sua casa não ficava muito longe. Entrei no prédio decrépito apoiado nele. Tinha a cabeça a andar à roda. Quando subíamos o último lance de degraus, cruzámo-nos com uma velhota, que só faltou benzer-se. Ele encostou-me à parede para poder meter a chave à porta. Entrámos. O apartamento cheirava a bafio, mas senti-me em casa. Levou-me para o quarto, onde me atirei para cima da cama, que continuava desfeita.

Não sei quanto tempo demorou até voltar com uma bacia de água, alguns esparadrapos e uma malinha de primeiros socorros. Como uma marioneta sem vontade própria, deixei que ele me sentasse na ponta da cama. Sem proferir uma palavra, começou a lavar-me o rosto. Sentia dor, mas o que me angustiava era o nó que se começava a formar na minha garganta. Desabei num pranto homérico. Revi-me, há muitos anos, naquele mesmo quarto, à beira daquela mesma cama. Nessa noite o meu pai havia-me enxotado de casa, não sem antes deixar bem claro que eu tinha morrido para aquela família. Sem tecto e sem dinheiro, enfiei-me no primeiro bar de panascas que encontrei. Foi ali que o vi em palco pela primeira vez. Envolto num imenso buá fuchsia, com uns sapatos de plataforma que mais pareciam andas e uma maquilhagem pesada. Fazia playback, mas nem quis saber quem imitava. Estava mais interessado em quem pudesse pagar-me um copo. Estava também disposto a vender-me por pouco. Só não queria passar uma noite ao relento como um viralata.

Já muito bebido, estava prestes a sair com um tipo cujas feições varri da minha memória quando ele, de cara lavada e já sem as roupas de mulher, me agarrou por um braço. Esbracejei, armei-me em rufia e quis bater-lhe. Ele não se assustou. Enfrentou-me e fez-me cair em mim. Ofereceu-me guarida na sua casa. Ainda hoje não sei por que o fez. Talvez as nossas estórias não sejam assim tão diferentes. Só sei que naquela noite pude tomar um banho, matar a fome e vestir uma roupa lavada. Perdi toda a empáfia, parecia um coelho assustado. Quando ele me apontou o futon na sala e fechou-se no quarto para dormir, fiquei perdido. Achei que fazia parte do jogo. Despi-me por completo e fui até junto da sua cama ― aquela mesma cama onde me encontro agora. Ele fez-me perceber que não queria nada em troca e obrigou-me a voltar para o futon.

Paro de chorar. Ali está ele. Como naquela madrugada, cuida de mim sem pedir nada em troca. Agarro-lhe na mão que faz os últimos curativos no meu rosto. Ele murmura qualquer coisa imperceptível e afasta, sem gestos bruscos, a minha mão da sua. Como ele me conhece bem. Durante todos estes anos, ele foi sempre o meu porto seguro. Deu-me dinheiro, ajudou-me a arranjar o primeiro emprego, foi o meu pai, a minha mãe, o meu irmão sempre que precisei. Ele amava-me em silêncio, há muito que o sabia, mas deu-me sempre amor e carinho sem nunca exigir nada ou mostrar ressentimento. Eu acomodei-me a essa troca desigual. Quantas vezes, não senti prazer em esfregar-lhe na cara que preferia outro tipo de homens, mais másculos, e que abominava o seu jeito efeminado. Ele, pelo contrário, nunca me condenou ou julgou.

Reparo que na sua camisa há uma mancha enorme de sangue ainda fresco. Obrigo-o a despi-la. Revela um pudor inesperado. Dou-me conta que ele já me viu nu vezes sem conta, mas que eu nunca o vi sem roupa… A custo, consigo libertá-lo. Tem vários cortes pouco profundos no peito e nos braços, feitos pelos cacos de vidro. É a minha vez de lhe lavar as feridas. Reparo que ele estremece sempre que lhe passo o pano. Vê-lo assim tão desamparo só me faz aumentar a ansiedade. Tenho o rosto totalmente dorido, mas ainda assim, num ímpeto, tento beijá-lo à traição. Ele afasta-me. Não me encara. Todo ele treme. Quero dizer-lhe que o amo, mas as palavras não saem. Quando quase consigo, ele tapa-me a boca e obriga-me a calar. Tem razão. Não tenho direito de o dizer. Mas quero fazê-lo. Empurro a bacia, os panos ensanguentados e tudo o resto. A muito custo, dispo-me. Ele continua sem ser capaz de me olhar. Mas desta vez, quando me debruço sobre ele e me deito ao seu lado, não me afasta. É chegada a hora de lhe dar um pouco do muito que sempre recebi dele. Sem piedade. Com muito amor.

-----------------------------------------
Inspirei-me no filme O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco. A banda sonora, essa surgiu numa madrugada sem sono, perdido no Fox, em que revi o episódio de abertura da quarta temporada de O.C. Uma música antiga, revisitada pelos Placebo. Tem tudo a ver.

22.5.07

A manhã seguinte-Parte II


Who do you need,
Who do you love

When you come undone

(Come undone, Duran Duran)


(Ler Parte I)
Uma súbita ameaça de erecção fê-lo voltar a si. Não podia fraquejar. A sua intenção era clara. Sempre fora. Para ele, pelo menos. Aproximara-se do outro com o firme propósito de o seduzir e descartar a seguir. Com a idade, tinha adquirido um talento especial para eleger as suas presas. Sabia detectar, à légua, os seus pontos fracos e era por aí que atacava. Não via nada de particularmente condenável no seu comportamento predatório. Pelo contrário, até sentia um certo orgulho em ser prático e objectivo. Não queria amor nem paixões arrebatadoras na sua vida. Tinha a sua profissão, que lhe consumia quase todas as forças, a sua família, o porto seguro a que voltava de vez em quando, e um grupo de amigos cada vez menor, mas que ainda assim não faltava ao seu chamado quando precisava deles. No resto, chegara à conclusão, muitos anos antes, de que misturar sexo com amor era pura perda de tempo e de energia.

Também não queria sexo só pelo sexo. Gostava do jogo do gato e do rato. Gostava de brincar com a sua presa antes da estocada final e dar-lhe, se ela tivesse sangue-frio para isso, a oportunidade de fugir. Perdia rapidamente o interesse no jogo se o seu parceiro demonstrava demasiada previsibilidade ― a dificuldade aguçava-lhe o instinto e fazia com que a capitulação final soubesse melhor ―, mas deixava igualmente de achar graça se, por algum acaso, o jogo caia num impasse e ameaçava prolongar-se indefinidamente. Ai, batia em retirada e ia à procura de nova vítima. A sua estratégia de caçador consistia em chegar-se a ela, depois de a eleger como o alvo mais vulnerável da manada, de mansinho. Cheio de cuidados para não a espantar. Simulava uma distância que desse à sua presa a sensação de estar a salvo, mas, à medida que ganhava à sua confiança, reduzia cada vez mais o espaço entre ambos. Quando a presa se apercebia, já estava suficientemente enredada na sua teia. Na maior parte dos casos, a cumplicidade entre os dois era já tão grande, que a presa nem se debatia ou oferecia resistência. Aliás, nada lhe dava maior gozo do que ser a presa a implorar-lhe para ser devorada.

Sorrateiro, deslizou até à beira da cama e pôs-se de pé. No lugar agora vago, o seu corpo continuava marcado no lençol como uma impressão digital. A sua primeira reacção foi a de passar a mão para o alisar ― como teria feito qualquer caçador furtivo que não quer deixar marcas da sua passagem ―, mas o receio de acordar o outro demoveu-o. Contrariado, começou à procura da roupa espalhada pelo chão. Agradou-lhe o contacto dos pés descalços com o soalho de madeira. Uma a uma, recolheu todas as peças, mas faltava-lhe um ténis. Sem fazer movimentos bruscos, abaixou-se e espreitou para debaixo da cama. Para seu alívio, estava ali.

Pé ante pé, aliviou o seu peso, o mais que pôde, para não fazer o chão ranger, contornou a cama e começou a dirigir-se à porta. Para verificar se o outro não dera por nada, espreitou uma última vez. Estava tudo na mesma, mas a cama pareceu-lhe muito maior. De repente, deixou de ver o outro para se ver a si reflectido num espelho que até então lhe escapara: um corpo nu, de pé, com roupas amontoadas nas mãos. Um fugitivo. Experimentou uma sensação estranha, de absoluto vazio, igual a que deve sentir a vítima de um vampiro depois deste lhe sugar o último sopro de vida. Nunca fora dado a sentimentalismos ― e se foi, já nem se lembrava do dia em que o deixara de ser. Semelhante constatação acertou-lhe em cheio, como uma pancada dada à traição.

Atordoado, saiu do quarto e fechou a porta atrás de si. Muito devagar. Deixou-se ficar por uns instantes amparado à ombreira. Queria começar a vestir-se e sair para a rua, mas algo retardava os seus gestos. Sem querer, começaram a vir-lhe à cabeça imagens em catadupas. Como num filme, pôde rever algumas conversas; o pudor do outro em se despedir dele pela primeira vez com um beijo; a forma divertida, e irónica, como reagia às suas alfinetadas; o jeito pueril como corou quando ele lhe segredou ao ouvido que não via a hora de o foder; o seu olhar, ao mesmo tempo assustado e ardente, quando se recostou na cama e, sem palavras, lhe deu sinal para avançar… Era como se estivesse a acontecer tudo outra vez diante dos seus olhos.

Quando, em que momento, sem ele que se tivesse dado conta, tudo aquilo havia deixado de ser um jogo, um exercício de sedução ― para si, pois para o outro, ele sempre o soubera, nunca o fora ― para passar a ser uma armadilha? O feitiço virou-se contra o feiticeiro: empenhou-se em acreditar, e consegui-o por anos a fios, de que o sexo era menos prejudicial à sua paz de espírito do que o amor. A fragilidade do seu plano, no fundo, sempre estivera exposta; ele é que não quis enxergar. Quem procura sexo fortuito não se dá ao trabalho de estabelecer laços de cumplicidade, ainda que provisórios e sob a desculpa de tornar tudo mais excitante, mas deixou-se cegar pela vaidade. A vaidade de quem se habituou a manipular as emoções alheias, criando nos outros a ilusão de que se estava também a dar, quando, na verdade, não estava. Iludiu-se de que poderia viver assim para sempre. Incólume. Mas ninguém brinca com o fogo impunemente.

Num gesto mais emotivo do que racional, girou a maçaneta da porta e entrou de novo no quarto. O outro permanecia na posição em que o havia deixado. Aninhado sobre si mesmo, quem sabe a precaver-se, ainda que instintivamente, do abandono que esteve iminente. Foi invadido por uma sensação que, até há pouco, teria confundido com mero desejo. Todavia, não foi capaz, naquele momento, de reconhecer o arroubo de ternura, mas cedeu quando uma força o impeliu para a cama. Largou a roupa no chão. O seu lugar mantinha-se vago e quente. Tudo voltou a fazer sentido. Como se ele nunca tivesse saído. Sentiu-se tentado a aconchegar-se mais, a abraçá-lo, mas resistiu desta vez. Foi o outro, ao pressentir a sua presença, que recuou e se encaixou nele. Continuava a dormir. Toda a pele do seu corpo reagiu àquela comunhão, mas mantinha-se hirto. Mas foi então que o vazio, que ainda há pouco o havia deixado tão angustiado, desapareceu para dar lugar a uma felicidade como há muito não sentia. Cedeu, por fim. E assim, pela primeira vez em muitos anos, permitiu-se amanhecer abraçado a alguém.

---------------------------------------------------------------

Dedicado a todos aqueles que andam por ai a enganar-se ― convencidos de que os iludidos são os outros, os que têm a generosidade de se mostrarem com são e não têm medo de se entregarem ―, até provarem do seu próprio veneno. E com isto, espero também ter encerrado, de vez, mais um capítulo na minha vida.

18.5.07

A manhã seguinte-Parte I


My heart was blinded by you.
I've kissed your lips and held your hand.

Shared your dreams and shared your bed.

I know you well, I know your smell.

I've been addicted to you.

Goodbye my lover.
Goodbye my friend.

You have been the one.

You have been the one for me.

(Goodbye my lover, James Blunt)


Pela janela mal fechada, vislumbrou a primeira luz do dia. Não tardaria muito a amanhecer. Reconheceu o barulho de um autocarro a passar na rua. Ia começar a espreguiçar-se lentamente, como sempre fazia ao despertar, mas conteve-se a tempo. Não queria acordá-lo. O outro estava deitado de lado, de costas voltadas. Pelo barulho da sua respiração ronronante, adivinhou que ainda dormia profundamente. Melhor assim, pensou.

Deslizou o seu corpo tão devagar quanto possível, até ficar de barriga para cima, a olhar para o tecto. Estranhara a cama, a almofada, tudo. Não estava no seu elemento. Tinha esse problema, o de nunca conseguir dormir bem numa cama que não fosse a sua. O certo teria sido partir mais cedo, mas as coisas precipitaram-se de tal forma que não teve como escapar antes. Por sua vontade, teriam ido para um sítio neutro, um qualquer quarto de uma pensão rasca, paga à hora, mas o outro não aceitou nenhum dos seus argumentos e insistiu em trazê-lo para a sua casa. Das duas, uma: era um inconsequente ou, pior, um daqueles tolos ingénuos, tão carentes de companhia, que estão mesmo dispostos a abrir mão da sua intimidade com um tipo que mal conhecem. Sentiu um leve tremor de desprezo a percorrer-lhe o corpo. Tinha de sair dali o mais depressa possível.

Como um prisioneiro de guerra, começou a engendrar a sua táctica de fuga sem levantar suspeitas. Com os olhos já habituados à semi-penumbra do quarto ― ele só conseguia dormir na escuridão total, mas deu graças por os cortinados terem ficado entreabertos ―, varreu tudo até ficar familiarizado com a geografia do lugar. Era um quarto relativamente acanhado ― aliás, como o resto do apartamento, do pouco que se recordava de ter visto na véspera ―, mas agradável. Paredes nuas, à excepção de uma enorme fotografia a preto e branco, que não lhe era totalmente estranha, pendurada por cima da sua cabeça. Para além da cama de casal, onde se encontravam, um cadeirão de verga junto à janela, uma pilha de livros de arte a servir de mesa-de-cabeceira do seu lado e um roupeiro que ocupava uma parede inteira, sem portas, onde podia ver roupa, sapatos, CD’s, uma aparelhagem Hi-Fi, e mais livros… A disposição da parca mobília e a forma como as coisas estavam arrumadas denunciavam uma intenção, uma ordem. Não tinha dúvidas, ao seu lado dormia um tipo meticuloso.

Aliás, dava-se agora conta que as únicas peças fora do lugar eram as suas roupas ― e só mesmo elas, porque, para sua enorme surpresa, apercebia-se disso naquele exacto momento, as roupas do outro estavam dobradas sobre o cadeirão (como é que conseguira fazer isso, sem que ele se desse conta, no calor do momento, haveria de permanecer um mistério) ―, despidas à pressa, pois, lembrava-se bem, tinha chegado ali consumido pela tesão, louco para jogar o outro na cama e saciar a sua fome.

Nisto, detectou o primeiro erro que lhe poderia sair caro. Tinha ficado do lado da janela e o outro dormia voltado para a porta, o que aumentava em muito as probabilidades de vir a ser apanhado em flagrante quando se preparasse para sair de fininho. Quase deixou escapar um “Merda!” sonoro, mas engoliu em seco. Como se tivesse pressentido a sua crescente agitação, o outro mexeu-se. Ele paralisou. Felizmente, o outro deixou-se ficar onde estava; apenas se aninhou. Parecia uma criança. Pela primeira vez desde que acordara, olhou-o com atenção. O seu corpo nu havia escapado quase por completo ao lençol, pelo que estava à sua mercê. Admirou-lhe as costas lisas, mas um feixe de luz, vindo da janela, pousava sobre elas e revelava uma fina penugem escura, que em nada diminuía o encanto da sua pele bronzeada. O seu pescoço, que tinha beijado com sofreguidão, era esguio, coroado por uma melena escura, onde ele tinha afundado os seus dedos e sentido a réstia de perfume, pousada em desalinho sobre a fronha amarrotada. As nádegas, que o tinham deixado enlouquecido ainda antes de as possuir, eram firmes e bem delineadas, tal como as suas pernas, que estavam dobradas.

Não os viu da posição em que se encontrava, mas lembrou-se também dos seus pés. Tinha um verdadeiro fascínio por pés masculinos, pelo que os seus amantes podiam sempre contar com uma atenção especial a essa parte tão injustamente esquecida nos jogos de cama, e que ele tanto gostava de massajar e de beijar. Alguns, e não podia deixar de sorrir quando se lembrava disso, reagiam com estranheza a essa sua predilecção e mostravam-se quase desconfiados. Não sabiam o que perdiam! Mas o outro tinha reagido muito bem aos estímulos da sua língua.
(continua...)

9.5.07

O beco


Abandona o bar a medo, mas o chamamento é mais forte. Tenta abstrair-se do eco quase ensurdecedor do seu coração a bater disparado. O bar está apinhado, mas na rua mal iluminada não se vê vivalma àquela hora da madrugada. Do outro, nem sinal. Não pode ter ido muito longe, pensa. Hesita por um instante, mas repara num beco mais a frente. Aproxima-se. Está ofegante e o suor escorre-lhe pelo rosto, apesar da brisa fresca. Avança, mas logo recua atordoado. Um cão escanzelado sai enxotado da ruela e quase esbarra nele quando se preparava para dobrar a esquina. Refaz-se do susto. Está agora à entrada do beco. Como imaginava, é um gaveto entre dois prédios, um lugar sombrio, sem janelas, com um odor fétido a urina e a restos de lixo. Dá mais alguns passos. Os seus olhos demoram algum tempo a habituar-se à escuridão ― aquele beco está ainda menos iluminado do que a rua de onde veio. É uma loucura o que está a fazer, sabe-o bem, mas o desejo sobrepõe-se já à razão.

Vê primeiro a ponta incandescente de um cigarro, só depois o distingue a ele. Encostado à parede com um olhar aceso. Está à sua espera. Sente-se tentado a correr dali para fora, mas as suas pernas fazem precisamente o contrário, obedecendo a uma ordem que ele não se lembra de ter dado. Estão frente a frente. E assim ficam por um tempo que lhe parece absurdamente longo. Não sabe o que fazer a seguir. Por fim, o outro atira a beata para o chão. Fá-lo sem pressas e nem se dá ao trabalho de a pisar. Agarra-o pelo pescoço e puxa-o para si. Beijam-se com sofreguidão. Além da mão no pescoço, que não o deixa descolar do beijo, uma outra mão pesada começa a deslizar por si. Detém-se na braguilha. Sente o seu baixo-ventre em carne viva por debaixo da roupa.

O outro solta-lhe a boca, mas não o larga e empurra-o contra a parede, onde fica pespegado como um animal encurralado. A libertação da adrenalina não lhe permite sentir medo, apesar de se saber cada vez mais indefeso. O outro, sem proferir uma única palavra, baixa-se e mergulha entre as suas pernas. Sente-se fraquejar à medida que é devorado. Qual presa na boca do predador faminto. O seu corpo, que se lhe afigura como uma entidade separada de tudo o resto, estremece resfolegante. Apesar de bem amparado pela parede, sente uma vertigem e, por momentos, não sabe onde agarrar-se quando se vê à beira do precipício. Mas eis que o torpor o abandona e, aos poucos, sente-se voltar ao seu corpo.

O outro não lhe dá descanso. Aproveita que as suas calças estão desapertadas e fá-las descer até à altura dos joelhos. Os seus gestos continuam bruscos e certeiros. Ele obedece mais uma vez. Sem dizer um ai. Mesmo quando o outro o vira de rosto contra a parede. De costas voltadas, pressente os movimentos alheios. Deixa-se estar. Agora é tarde demais para recuar. O outro chega-se a si e entra à força, sem cerimónia. O vaivém dos corpos obriga-o a roçar-se vezes sem conta na parede rugosa, mas essa é uma dor que só sentirá mais tarde. Por agora, o seu corpo está demasiado febril e não lhe obedece. O ímpeto do outro começa a amainar, até que se esgota por completo. Ele não se mexe. Com o rosto colado à parede. De costas voltadas. Primeiro, ouve o outro compor-se, e só depois a afastar-se. Ele deixa-se ficar mais um pouco. Sente-se esvaziado, mas saciado. Dá-se conta que do outro não se recorda mais do que de dois olhos acesos num beco sem saída.