2.7.07

A despedida-Parte I

Anjo Caído, Fábio Góis

PRÓLOGO
Não gosto de despedidas. Mas gosto de escrever sobre elas. Gosto do que trazem à tona. Imaginei cinco estórias curtas para falar de algo que está muito presente nas nossas vidas, mas com o qual nem sempre sabemos lidar da melhor forma. Dizer adeus, seja em que situação for, não é fácil. Nunca é. Para cada uma dessas estórias, que começo hoje a publicar à razão de uma por dia durante toda esta semana, fui buscar uma música. Se puderem, quando as lerem, não deixem de escutar a respectiva trilha sonora. Foi assim que idealizei estes cinco momentos.


I
A MALDIÇÃO

(Trilha sonora: Gabriel, pelos Lamb, escutar aqui)


Conheci o Gabriel numa festa. Até aí nada de novo. Perdi já a conta aos muitos rapazes iguais a ele que seduzi nas orgias regadas a champanhe e a cocaína que insisto em frequentar, apesar de não gostar nem de uma coisa, nem de outra. Mas é o meio onde sempre me movi, qual ave nocturna, e vícios antigos não se perdem de um dia para o outro. Confesso: quando ele se começou a insinuar junto a mim, não lhe prestei grande atenção, mas, ao aperceber-me da luxúria que acendia nos meus amigos, resolvi olhar melhor. Para mais, estava particularmente enfadado naquela noite e o facto de ele me preferir mexeu também com a minha vaidade. Foi assim que o levei dali para fora e o arrastei para a minha cama. Apesar de algo inexperiente, pelo menos assim me pareceu de início, devo reconhecer que me fez o melhor broche dos últimos tempos. Não sei se por isso, se por outra coisa que não me interessa aprofundar, o certo é que, contrariando as minhas regras, o fui deixando ficar. Faz agora uma semana. Dorme. Posso vê-lo daqui. Percorro com os olhos o seu corpo nu, deitado de bruços. Não preciso de esticar a mão para sentir o arrepio da penugem fina que lhe cobre a pele, nem o toque suave da melena loura desgrenhada. A visão de um anjo caído no negrume dos meus lençóis. Quase sinto a ternura a aflorar, mas trato de a enxotar. Não condiz comigo. Eu sou como Lestat* e a minha cama é uma emboscada aos desavisados. Preciso do sopro de juventude deles, dos homens mais ou menos imberbes que atraio até ali, para manter viva a ilusão de que continuo a ser o mais belo e o mais desejável. Sei, porém, que o tempo, implacável, está a correr. Eu já fui o Gabriel. Quase me apetece abaná-lo e gritar-lhe:
- Rapaz, salva-te enquanto podes. Salva-te de ti mesmo… Não queiras acabar os teus dias como eu!
Reprimo a tempo esse súbito ataque de consciência. Quem quero eu enganar? Por vezes, a solidão, que me atormenta há séculos, mete-se no caminho, mas eu não vacilo. Gabriel tem de partir. Tê-lo ao meu lado, por muito que a ideia me pareça tentadora agora, ser-me-ia insuportável quando me desse conta de que os olhares de cobiça eram dirigidos a ele e não mais a mim. Sou como Lestat e Lestat, o mais belo dos belos, está condenado a viver só.

*Personagem de Entrevista com o Vampiro, de Anne Rice

11 comentários:

FOXX disse...

q texto familiar
parece q eu ja li
ou vivi ele


sei lá


estranho...

Will disse...

Ontem estive até às 3h da manhã numa conversa sobre o tema... Pode ser que um dia o vampiro descubra que consegue viver fora de um mundo de trevas sem que a luz lhe corroa o ser.

edu disse...

Já pensou numa carreira no cinema? A música casou perfeitamente!! :-)

Menino G disse...

Eu sou o Gabriel...

Mas eu não quero partir. Lestat, por que não me deixas beber de tuas veias? Não sou mal o bastante?

Mesmo condenado a escuridão, sempre há o perdão daquele que dizem ser o Senhor.

Menino G disse...

"Quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus permanece nele."
Cartas de São João.

Bonitinho, não?!

Poison disse...

Hum...
Adorei o clip!
Adorei a imagem!
Adorei o post!
Mas o texto me deixou angustiado! Tem uma tensão nele que me acertou em cheio... só ainda não sei aonde... hehehehe!!!
É o Mágico de Oz causando seus efeitos em seus humildes leitores e admiradores!!!
Abraços!!!!

Tovarish disse...

Uma estória comum... uma música que chega à Alma.
Parabéns!

pinguim disse...

A conjugação da músico com o texto é perfeita.
A história, bela, muito bem contada, passa-me todavia, um pouco ao lado, pois ao contrário de Lestat, nunca me embeveci com o "eu"; quero antes que seja apreciado (quem não quer?), pela ternura dos gestos e pelo sorriso dum olhar penetrante.

RIC disse...

Ao narrador desta história eu diria apenas que Narciso morreu afogado... E que lençóis negros, apesar de excitantes, são pouco atraentes. Ajudam à construção da personagem, mais nada.
Pose a mais acaba por trair o mundo interior do narrador. Dá vontade de perguntar: quem é que ele pensa que engana?
Abraço! :-)

Pralaya disse...

Texto triste.... muito... talvez porque na verdade não seja assim tanto ficção o que descreves mas muita realidade...

Anónimo disse...

O pior da dor é que só se sente quando é forte demais para se suportar