17.8.07

Os estetas


Oh, why you look so sad? Tears are in your eyes
Come on and come to me now.
Don't be ashamed to cry, let me see you through
Cause I've seen the dark side too.
When the night falls on you, you don't know what to do,
Nothing you confess could make me love you less
I'll stand by you, I'll stand by you, won't let nobody hurt you,
I'll stand by you.
So, if you're mad get mad, don't hold it all inside,
Come on and talk to me now.
And hey, what you got to hide? I get angry too
But I'm a lot like you.
When you're standing at the crossroads, don't know which path to choose,
Let me come along, cause even if your wrong
I'll stand by you, I'll stand by you, won't let nobody hurt you,
I'll stand by you.
Take me into your darkest hour, and I'll never desert you.
I'll stand by you.
And when, when the night falls on you baby, you're feeling all alone,
You won't be on your own, I'll stand by you. I'll stand by you
I'll stand by you, won't let nobody hurt you. I'll stand by you
Take me in into your darkest hour and I'll never desert you

I'll stand by you.

(I’ll Stand by You, por The Pretenders, escutar aqui)


Não me apeteceu fazer pendant. A música não tem a ver com post, nem o post combina com a imagem. Estão aqui porque me apeteceu. Tout court. O que não quer dizer que não haja um motivo para essas escolhas terem sido feitas e um nexo de causalidade. A música, elegi-a pela mensagem. Uma mensagem que quis passar. A uma pessoa em particular. A imagem porque é de um filme que gosto. Melhor. É de um filme, O Talentoso Mr. Ripley, que me lembra o Verão, Itália e uma certa forma dandy de estar na vida a que não sou indiferente.

Quanto ao tema deste post, quem leu o anterior vai achar, e não os condeno, que ando a ver televisão a mais. Pois é, o noctívago que há em mim não me deixa ir para a cama cedo como qualquer outro comum mortal. Resultado, entre um ou outro dever, arranjo sempre maneira de espreitar um seriado. Acompanho vários ao mesmo tempo. E nem sempre sigo o fio à meada. É o que acontece com o já citado Brothers & Sisters. Noite dentro, apanho mais um episódio desgarrado da primeira temporada. Não é a continuação do último que vi, mas o bom destes enredos é que não precisamos de muito para entrar na estória. Desta vez, a matriarca do clã Walker (Sally Fields) está com o filho gay na cozinha (Matthew Rhys). Depois de ter ficado viúva e de ter descoberto que foi traída pelo marido durante uma boa parte do casamento, ela está a ressuscitar um talento antigo para a pintura e para a escrita criativa. Pede a opinião do filho sobre um trecho que escreveu e fá-lo porque, segundo ela mesmo confessa, “ele tem maior sensibilidade do que os irmãos” para poder avaliar o seu talento… A réplica do filho ― “ O que tu queres dizer é que sou gay…" ― não surpreende, pois era a resposta óbvia naquele contexto, mas deixou-me, uma vez mais, em estado meditativo: desde quando é que se tornou ponto assente ou legítimo esperar que os gays possuam uma maior sensibilidade artística e um gosto mais apurado?

Admito, se é que ainda não ficou claro para quem habitualmente me lê, que sou, por norma e por feitio, avesso a generalizações. Quero dizer que não me conformo facilmente com essa mania de arrumar tudo e todos no mesmo saco. Mesmo conhecendo muito poucos, estou certo que haverá por ai muito gay sem o menor talento, ou interesse, para escolher e combinar roupa. Mas isso leva-me também a um outro preconceito, que notei existir mesmo na comunidade gay, e que passa por associar essa maior “apetência” ao lado feminino, como se um homem com maior sentido estético fosse, necessariamente, menos viril. Depois, insisto: desde quando é que se tornou, também, ponto assente que gostar de roupa ou de flores, por exemplo, é sobretudo coisa de mulher?

Meço o caso por mim. Gosto de roupa, já gastei mais do que deveria numa ou noutra peça, sou capaz de folhear uma revista de moda, até sei quem é Tom Ford, mas se me perguntarem, assim de rajada, quem é o Dolce e quem é o Gabbana, o mais certo é eu hesitar e falhar a resposta. Da mesma maneira, e sobretudo graças a uma profissão que me possibilitou o acesso a determinados lugares, acabei por desenvolver um certo sentido estético e gosto pelo design de interiores. Talvez por isso, muitos familiares e amigos fiam-se na minha opinião a esse respeito e não se admiram mais por eu sentir necessidade de mudar ciclicamente uma ou outra coisa na decoração da minha casa. O curioso é que eu me retraio muito mais de fazer alarde disso do que eles… Vai ver porque eu sempre acho que se um dia vierem a saber que sou gay vão logo associar uma coisa à outra. Ou seja, o preconceito parte de mim e isso, claro está, irrita-me.

Por outro lado, há ideias que estão de tal forma enraizadas que não adianta de muito sequer colocá-las em causa… Veja-se o caso das mulheres e dos gays. Não há filme ou seriado que não bata na mesma tecla, ou seja, a de que as mulheres não dispensam os gays quando acabam um relacionamento, e lhes dá muito jeito ter por perto um homem que as saiba ouvir e mimar sem segundas intenções; e quando vão comprar roupa, pois parece que os gays batem aos pontos os heteros, homens e mulheres, nessa hora: olham de perto sem sentir a tentação dos primeiros e opinam com a sinceridade que falta muitas vezes às segundas... A minha primeira reacção é franzir o sobrolho a tal redundância grosseira, mas, aqui entre nós, pensando bem, ambas as situações não são assim tão improváveis como isso… E quem nunca se viu numa "armadilha" idêntica que atire a primeira pedra!

Para rematar, continuo sem saber se os gays, de uma forma geral, possuem ou não um maior sentido estético, agora que são, cada vez mais, um alvo a seduzir disso não tenho dúvida. Depois de descobrirem que os casais gays, os chamados DINK (Double Income, No Kids) têm bom poder de compra, as grandes marcas estão apostadas em apelar descaradamente à sua veia hedonista. A mais recente é a campanha da Levi’s 501 (ver aqui), que se deu ao trabalho, e à despesa, de criar para o mercado norte-americano um filme publicitário com duas versões: uma para os meninos que gostam de meninas e outra para os meninos que gostam de meninos. Então e as meninas que gostam de meninas? Bom, pode ser que se lembrem delas quando escolherem um outro modelo de calças... Digo eu... ),

9 comentários:

edu disse...

Olha o preconceito contra as caminhoneiras, tadinhas!! Elas que deviam ter propaganda de levi's!! :-)

Meu caro, costumo dizer que o arco-íris é o melhor símbolo que encontraram para a bicharada (e talvez para todo tipo de sexualidade): porque existem tantas cores, tantas nuances...

Eu por exemplo não passo de um moleque que até tenta decorar (interiores e a si mesmo) mas não tem muito talento (ou, principalmente dinheiro e habilidades pra fazê-lo sem o tal dinheiro). Mas o mundo é feito de generalizações porque as pessoas não querem lidar com tanta informação. Aí eles agrupam e o cérebro só precisa saber de meia-dúzia de coisas.

Bom fim-de-semana!!

Ricardo disse...

Meu lindo padeiro,quanta elucubração a respeito dos gostos e aptidões dos gays!! Hauahuahauha!

Na realidade concordo com vc! Acho que não existe uma regra! Cada um com a sua sensibilidade! E se mulheres fossem todas sensíveis e com gosto estético, não veriamos tantas aberrações na rua!

Beijão!

RIC disse...

Acabei há minutos de ver o último episódio (duplo) da primeira temporada de «Brothers & Sisters», na RTP2. Gosto da série porque a considero de qualidade e os desempenhos são - alguns - muitíssimo bons. Mas a tentação é forte e a carne fraca... À força de qurerem passar uma mensagem «pedagógica», tudo agora tem de girar em torno da «gayhood»...
Começo a olhar de lado e sinto-me a distanciar-me...
De súbito, surge um antigo amigo do «uncle Saul», casado, dois filhos, etc., e já não se viam há vinte anos... O actor é um macheco de Hollywood, a julgar pelos papéis que sempre desempenha. Ora não é que ele vem à festa para «comunicar» a Saul a razão pela qual se divorciou? E que razão é essa? Que, como milhares e milhares de homens, deixou de amar a mulher ou se tomou de amores por uma novinha? Não! Pelos vistos, o figurino já não pega... Então, por entre as minhas gargalhadas, o actor macheco diz que descobriu que é gay e que tinha de se assumir... (Aprendem depressa!) Ah e que tinha saudades do uncle Saul... Ora bolas!...
«Cutting the long story short»: não tardará a haver uma hiperinflação de situações gay em tudo e mais alguma coisa, a propósito ou a despropósito. Sou bastante avesso também a generalizações, lugares-comuns, clichés... e vejo os próximos tempos a abarrotarem de casos semelhantes. Até o macho mundo do futebol, tão entrincheirado, começa a desandar: no Brasil, na Europa... Será mesmo «l'air du temps»? É esperar para ver...
Apanágio da sensibilidade nenhum ser humano tem. Conheço (um ou dois) héteros que não dão mais largas à sensibilidade que sabem ter porque foram educados no sentido de que «isso são coisas de meninas ou... de invertidos...» Mas eles são pais de família estáveis e sabem muito bem que a têm.
Abraço! :-)
(Desculpa a extensão...)

Trintinha disse...

Amigoooooooooooooo! Amei tudo! A Música, o filme, teu post... Adoro o jeito que vc escreve! Ah, vou conferir agora a tal propaganda! Beijos!

pinguim disse...

Meu caro Oz
mais uma das tuas agradáveis deambulaçõesm não tão pessoais como á primeira vista parecem, pois consegues sintetizar em textos longos, é certo, diversas formas de estar/ser do mundo gay, não hesitando e muito bem, em criticar, quando essa te parece a atitude mais corecta; e essass deambulações exprimem o ponto de vista de muita gente,nas quais eu me incluo a maior parte das vezes. Há é uma diferença; é que eu, embora me sejam perceptíceis esses factos que tu tão bem, consegues "abrir" e mostrar por dentro, passo frequentemente ao lado, mais por comodismo, do que por alheamento. É bom ver que alguém tem a ideia (ia escrever "sensibilidade", mas lembrei-me do texto a tempo, eheheh...) de nos ir pondo a pensar sobre esta nossa maneira de estar em sociedade. Um obrigado por isso.
Abraço.

Luís Galego disse...

Não me apeteceu fazer pendant. A música não tem a ver com post, nem o post combina com a imagem.

ms no final, tudo me pareceu bem conjugado, bem conjugado, afinal!!!

O Talentoso Mr. Ripley, é um dos meus filmes...e oiço e não me canso de ouvir My Funny Valentine...fetiche, quem sabe????

Moura ao Luar disse...

Hihi e já agora um anuncio para quem nao é esquisito e gosta de homens e mulheres, outro para o menage, orgias... uiui isso é que era publicidade a sério ;-)

FOXX disse...

toda generalizaçao é burra...
parafraseando o filósofo...

mas naum podemos negar
q os gays se interessam pelo assunto
em escolas de arte são a maioria do público, em cursos de moda e arquitetura de interiores tb...
pq?
geneticamente a mulher consegue ver mais padrões de cores que um homem, distinguir entre um azul, um turquesa, um lápis-lazuli, etc... será que os gays tb tem esse padrão genético, então, conseguiriam notar que aquelas cores combinam melhor entre si?
ou este tb pode ser apenas um papel social: seu gay se mantiver apenas como designer, vivendo de arte, sem influenciar diretamente no mercado de trabalho, "roubando vagas", aí ele pode ser aceito. Mas sempre se mantendo dentro do seu gueto... um gueto mais arejado, mas um gueto?
vc atiçou uma duvida!

Maurice disse...

Caro Oz,

Vim cá só para te deixar um abraço. Tenho andado quase arredado dos blogues. Mas sempre que entro, venho cá espreitar... Tu tens essa mania de nunca desiludir...:)
Concordo inteiramente com o que dizes.