9.8.07

Eu, ele, a mãe dele, a minha mãe...


I pray you learn to trust
Have faith in both of us
And keep room in your hearts for two

(Precious, por Depeche Mode, escutar aqui)


Num destes dias, ou melhor, numa destas noites, dei por mim a assistir no FOX a um episódio desgarrado da primeira temporada de Brothers & Sisters, um seriado (mais um) da ABC. A dada altura, na festa do 60º aniversário da matriarca, interpretada por Sally Fields ― com muita confusão, tensão familiar e gags à mistura, como convém ao enredo ―, as personagens de Calista Flockhart (para quem não se lembra, a eterna Ally McBeall) e de Rob Lowe (para quem não se lembra, antigo “namoradinho” da América até ter sido descoberto num vídeo caseiro a brincar de threesome com uma amiga e um amigo) estão a beber, às escondidas, no roupeiro dela. Entre sapatos e vestidos, ela insiste para o senador republicano contar ao irmão gay dela ― interpretado por Matthew Rhys (para quem não sabe, um actor do País de Gales que se tornou conhecido depois de contracenar com Kathleen Turner, no West End londrino, na peça The Graduate) ― que também tem um irmão gay... Isto porque o rapaz, que se assume sem problemas perante a família e o mundo, não vê com bons olhos a irmã estar a envolver-se com o membro de um partido conhecido pelas suas posições conservadoras em relação aos homossexuais.

Fiquei a pensar no assunto...

Quando ponderei envolver-me pela primeira vez com um homem, na interminável listas de prós e contras que formulei na minha cabeça, uma das coisas a favor era, precisamente, o facto de ele não se assumir como gay e de fazer praticamente vida de casado com uma namorada dos tempos da universidade… Achei que assim não corria dois riscos fundamentais: o de ele querer algo mais sério (e ficar no meu pé caso eu quisesse bater em retirada); e o de não ser do seu interesse, tal como do meu, expor-se. Curioso que, no final, quando os contras venceram os prós e eu decidi não avançar, já nem sequer tinha tanta certeza se aquilo que me parecia ter sido uma vantagem no início ainda o era… Sai com a nítida impressão de aquela bissexualidade mal digerida tinha contribuído, e muito, para o tornar uma pessoa conflituosa e mal resolvida.

Adiante.

O segundo homem por quem me interessei, e quase me apaixonei, sabia há muito ser gay. Não tinha (nem tem, acho eu) a menor dúvida a esse respeito. Chegou a dizer-me que, depois de ter beijado um homem pela primeira vez, nunca mais se conseguiu envolver com uma mulher. Mas vivia (ainda vive, acho eu) no armário. Por motivos familiares, por razões profissionais. Há anos que é assim. Achei normal. Mais. Identifiquei-me com a situação. Afinal, também eu me imaginava a viver do mesmo modo. Em mundos paralelos. Acontece que, no pouco tempo que “convivemos”, me apercebi que nem tudo estava tão bem resolvido na sua cabeça como eu julgava à partida. Depois de anos a viver na sombra, na noite, de vários casos abortados, esse homem, descobri, tornou-se desconfiado, quase desenvolveu uma fobia a possíveis doenças e contágios e refugiou-se na carreira para ter uma desculpa. Uma desculpa para não se envolver.

Adiante.

Entra um terceiro homem na minha vida. Permito-me explorar com ele novas emoções, arriscar diferentes sensações, transpor certos limites. Desde o princípio, torna-se claro para os dois que é muito mais do que sexo o que está em jogo. Mas não é disso que importa falar. Ele vive a sua sexualidade de forma aberta. Não faz dela um estandarte, porque como eu acredita que um homem não se define por quem dorme na sua cama, mas integrou-a, sem traumas maiores, na sua vida. Como a personagem de Matthew Rhys no seriado, ele fala dos seus amores e desamores com a mãe, numa conversa banal, mas sempre cúmplice. Se for preciso enquanto partilham um cigarro ou bebem um copo de vinho na cozinha. Fico feliz por ele. De verdade. Mas também assustado. Como estamos cada vez mais envolvidos, achei que tinha o dever de lhe dizer que para já ― e não sei quando esse dia chegará, ou mesmo se chegará alguma vez… ― eu não sentia necessidade de falar de mim e do que estou a viver à minha família, à maioria dos meus amigos. Ele aceitou, mas eu fiquei com reservas.

No mesmo episódio, o irmão gay está na cama com o seu namorado, interpretado por Jason Lewis (para quem não sabe, o garanhão louro de Samantha em O Sexo e a Cidade). Toca o telemóvel (celular). O namorado atende e diz que está na casa de um amigo. Um amigo. Na cara do irmão gay é claro o desapontamento por ter ficado reduzido à categoria de “amigo”. O namorado percebe e convida-o para tomar o pequeno-almoço fora. O irmão gay não resiste a fazer uma piada: “Que bom! Vamos poder ser vistos juntos no mundo exterior”!

E é ai que eu pergunto: por muita boa vontade que haja de parte a parte, como se administra, sem dar espaço à recriminação mútua, uma relação em que um receia a sobrexposição e a invasão da sua intimidade e o outro teme tornar-se um homem-sombra condenado a amar às escondidas? Desconheço a resposta, a fórmula, se é que existe uma. Mas estou disposto a tentar.

15 comentários:

Latinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Latinha disse...

Então, já acreditei que poderia viver uma vida "discreta" e sem maiores sobressaltos... tinha a certeza de que poderia segurar a areia entre meus dedos. Não que eu pretenda sair levantando bandeiras, mas já duvido se isso é justo.

Na primeira "ameaça" de me envolver com alguém, descobri a primeira falha no meu "plano perfeito". Amar nos transforma, nós torna mais bonitos, mais vistosos, sem contar o indisfarçável sorriso a decorar os lábios.

Hoje, "só sei que nada sei"...
Honestamente não faço idéia de como seria ter um relacionamento (e não sei se me contentaria com o papel de amigo!)

Adorei o post!!!

Will disse...

Com muita paciência e serenidade caro Oz.

O tempo é amigo e costuma apontar-nos o caminho certo. Só tens que ir arriscando...

edu disse...

Hmmmm... queria saber o que tinha no comentário removido.

Sobre o sensacional post, também confesso que não sei a resposta, se é que há alguma. Tenho vontade de sair do armário para a família. Para os amigos, os melhores, já saí. Para os do trabalho, nem pensar. Costumo acreditar que é porque no trabalho não se deve falar da vida pessoal, mas a força desse argumento é obviamente aumentada pelo medo. Gostaria de trabalhar num ambiente gay friendly de verdade... O que eu costumo dizer é que "não falo nada, mas se me perguntarem eu respondo". Tanto em casa quanto no trabalho. Outro dia um cara do trabalho me viu no supermercado com o Bichinho. No dia seguinte me perguntou quem era e eu falei "Meu namorado!" com um sorriso. Claro que ele achou que era deboche, mas pelo menos eu não menti! :-)

BEIJO!

RIC disse...

Sem querer ser de todo cínico, aplica-se muitas vezes a «máxima» que reza: «com a verdade me enganas»... como é claro no comentário do Edu.
Não creio que haja fórmula nenhuma. Tudo depende de um vasto leque de factores e condicionantes, do que cada um está disposto a arriscar, do que vale a pena (decisão subjectiva!) arriscar. A minha geração, por exemplo, não se importa muito com o «estatuto de amigo» desde que as famílias de ambos sejam «gay friendly»; assim, fica tudo «implícito» e ninguém incomoda ninguém, mesmo que ambos vivam juntos.
Quanto a mim, prefiro que não haja bandeiras a expor. Não preciso de dizer abertamente a ninguém que aquele homem é o que se deita comigo. Não me agrada o papel de fornecedor de material para acicatar imaginações alheias... Algumas bem doentias e debochadas... O que inclui - também - o próprio meio homossexual. A verdade da relação e dos sentimentos existe no espaço entre os dois: é aí que ela tem de ser inequívoca! Não entenderia que em casa se ateasse o fogo e na rua se tivesse de baixar a temperatura para níveis frios de «apenas bons amigos»...
Mas isto sou apenas eu a pensar alto... (E em voz alta...)
Abraço! :-)

pinguim disse...

Meu caro Oz
mais uma vez um post teu que daria "pano para mangas"...
Cada caso é um caso, mas parece-me que mais importante, como diz e bem o Ric, do que aquilo que as pessoas pensem e digam sobre uma relação, é a forma como os dois a vivem.
Mais uma vez, recorro ao meu caso pessoal, pois neste caso é bastante importante; sendo eu assumido, perante a família e amigos, pela 1ªa vez tenho uma relação com alguém que está longe, muito longe de se assumir, e que todos pensam ser impossível ser homossexual, pois tem sido bissexual (para ele) e hetero para todos. Quando o fui visitar, teve que se "inventar" uma pequena mentira para justificar a minha presença, perante os amigos, já que para a família (só vive um irmão e respectiva família em belgrado), essa mentira seria impossível.assim as 2 semanas ali passadas foram "semi clandestinas", mas entre nós foram maravilhosas e é curioso que os seus 2 maiores amigos ganharam uma proximidade comigo que penso, num futuro próximo, dar para entender que a "nossa amizade" é muito mais que isso.
Os nossos outros encontros aqui em Portugal e em londres foram totalmente "livres" sem ter que esconder nada de ninguém, como será o próximo em Zadar, onde só estarão na altura familiares mais distantes.
Tudo para concluir que não é fácil gerir uma situação afectiva com alguém não assumido, mas o amor, se é real, vence tudo, até os preconceitos, meu amigo.
Desculpa a "enormidade" do comentário.
Abraço.

Ricardo disse...

Meu lindo, vc já teve a impressão de que as coisas se encaixam e que um assunto começa a ser discutido em diferente frentes e de diferentes formas, em um universo reduzido? Complicado isso, não?? GHauahuahauhuah!

Bom, se vc ler seu proprio post, ler o do Latinha e depois ler a reportagem que eu postei, vai ter essa sensação! E olha que foi sem combinar!!!

Normalmente debatemos o eterno dilema do ativo passivo. Mas estamos no embate entre assumido e o "fora do meio"!!!

Bom, quanto ao seu posty... tem como se descobrir uma coisa dessas sem experimentar??? Eu não conheço!

E quer saber, mesmo podendo levar pela cara no meio do caminho, vale a pena tentar!!!

Beijão!

edu disse...

Como sempre seus textos deixam a gente matutando. Fiquei pensando que se todo mundo ficar cool, na sua, na intimidade das quatro paredes, provavelmente não teríamos hoje certas liberdades. Não consigo não achar importante as bichas afetadas, os travestis, dando a cara a bater pra que nós hoje sejamos ligeiramente mais aceitos, inclusive legalmente. Então fico me sentindo hipócrita do alto do meu conforto. Não sei.

Aequillibrium disse...

Como muitos outros estou dentro do armário com a porta aberta. Ou seja, assumi-me perante alguns, aqueles que eu queria que soubessem e aqueles que foi necessário saberem. Família, talvez um dia. Alguns amigos, talvez para breve. Para o mundo em geral, quem sabe? A minha visão sobre o assunto tem variado muito com o tempo. Se houve alturas em que achei que a afirmação da sexualidade deveria ser uma coisa explícita, tb houve alturas em que a vida na "clandestinidade" me parecia a escolha mais correcta. Actualmente, acho que a solução está no meio, que as "afirmações" de cada um dependem dos momentos que se vivem, que num casal isso pode não ocorrer de igual forma para ambos os membros, e que depende muito da capacidade de cada um para se aceitar a si e aos outros a forma como isso nos afecta..

=)

hotspot_fortaleza disse...

OLA AMIGO, ADOREI O POST, ME FEZ PENSAR BASTANTE ... MAS O MELHOR A SE FAZER É NÃO COMPLICAR ... TUDO TEM O SEU TEMPO CERTO !!!

BEIJOS

http://hotspotfortaleza.blogspot.com/

Pralaya disse...

Não existe formula, temos de aprender a respeitar a nossa opinião e a dos outros, não vejo problema em omitir certos comprotamentos, niguém têm de saber com quem durmo ou com quem estou.

Menino G disse...

Querido, vc foi ao cerne do problema.

Ainda ontem eu sai com um cara de 40 anos e acabei indo dormir na casa dele. Como tinha bebido muito, em dado momento ele começou a me contar sobre como era horrivel pra ele viver a sua bissexualidade, em como ele se sentia aprisionado. Ninguém que convive com ele sequer imagina que ele curte outros homens, e ele nunca conseguiu levar uma relação com outro cara adiante justamente pq ninguém pode desconfiar dele. Diferentemente do cara, eu, aos meus 19 anos sou assumido pra minha família e não me grilo se alguém na rua ou na faculdade ou seja em que lugar for vai achar sobre mim por causa da minha sexualidade. A única verdade pra mim é que eu não posso viver de mentiras e nem viver sendo apenas metade de mim.

"Ser inteiro pra ser grande" Sabe?!

Estou a deixar tudo de mim vir a flor da pele e não me arrependo disso. Porque pra mim

"É melhor queimar do que se apagar aos poucos."

Ainda enquanto conversavamos ele me perguntou se eu sabia que amanhã ou qualquer outro dia nós poderiámos nos encontrar em algum lugar e ele não me comprimentaria, simplesmente por eu ser assumido. Eu ri e respondi: vc já pensou na possibilidade de ser eu a não vir te comprimentar?

Beijos!

Poison disse...

O título do teu post faz jus a algum filme do Almodóvar... hehehe!!!

Percebo teu questionamento... importante as regras ficarem claras para os 2... e se o cara já "topou", paga pra ver!!!

Agora sobre sogra: quanto mais longe melhor. Eu irrito automaticamente crianças, animais de estimação e sogras. Um inferno!!!

Abraços!!!

BlueBob disse...

Olá Oz!

Existem situações e situações. Não existe um modelo pronto que se encaixe para todos. Não recrimino nem incentivo a que se faça assim ou assado. Cada um conheçe bem sua própria situação e age de acordo.

Bjs

Trintinha disse...

Amigooooooooooooooo! blz? Olha, eu penso assim, o que é combinado, esclarecido antes, não sai caro... E, se o amor fala mais alto, cada um cede um pouco e um acordo coloca fim nisso! que tal? beijos, cherry! Já terminei meu post, passa lá prá ver!