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4.6.07

Sim, estou a ouvir...


Laughing with your pretty mouth
[Andrea] Laughing with your broken eyes

[Bono] Laughing with your lover’s tongue

[Both] In a lullaby

Where do you go when you’re lonely?
Where do you go when you’re blue?

Where do you go when you’re lonely ?
I’ll follow you...

(When the stars go blue, The Corrs & Bono)


Vou deixar as metáforas e os contos de lado por uns tempos. Hoje estou aqui para jogar conversa fora. Sim, este é, assumidamente, um texto descartável. Que se lê (ou não) e deita no lixo. Não vem daí mal nenhum ao mundo.

Aliás, se eu fosse um gajo realmente esperto, assumia com mais naturalidade o meu lado fútil e deixava-me de tretas. Tinha-me poupado, por exemplo, a uma chatice monumental na passada sexta-feira. Como vem sendo hábito, fui ao cinema. Hesitei entre dois filmes, mas acabei por me decidir por Still Life- Natureza Morta, pois imaginei que estivesse prestes a sair de cartaz. Tinha visto a apresentação, lido uma ou outra coisa a respeito e fiei-me na minha boa experiência com cineastas chineses da nova vaga ― foi este mesmo espírito curioso que me levou, anos atrás, a descobrir nomes hoje consagrados como o realizador Zhang Yimou (preferia a simplicidade de um Trigo Vermelho ou Ju Dou às tropelias virtuais de agora, mas enfim…) e a encantar-me com a beleza da então ainda desconhecida Gong Li.

Asneira da grossa. O filme foi penoso do princípio ao fim. Para me redimir, castiguei-me nessa mesma noite ― sim, porque há muito que deixei de sair para a night à sexta, agora só vou arrastado; prefiro outros dias da semana para sair ― e decidi ver A Ilha ― esse mesmo que estão a pensar, com os perfeitinhos Ewan McGregor e Scarlett Johansson ―, que passava na TV Cabo. Não gasto dinheiro para ver este tipo de filmes, mas se passa numa televisão perto de mim ― e não tenho nada melhor para fazer, como era o caso ―, podem apostar que me pespego ao ecrã. À partida, a ideia até não é má, mas não tardei a constatar o óbvio: enredo inverosímil, efeitos especiais a mais e planos demorados, bem demorados, nos dois bonecos. Okay, aquelas carinhas larocas não ofendem a vista.

Devo dizer que Ewan McGregor, que prefiro recordar em filmes como Trainspotting, Moulin Rouge ou Big Fish, não é bem my cup of tea… Em A Ilha, facto raro, o rapaz não baixa as calças uma única vez. Não, não estou a ser mau, ele é que gosta de apregoar que não se importa nada de tirar a roupa no grande ecrã (suponho que na intimidade também não se faça rogado). Quem já teve a oportunidade de conferir o dote do escocês (só para citar os mais óbvios: Young Adam ou The Pillow Book), percebe de onde lhe vem tão grande à-vontade.

Mais uma razão para tirar o chapéu ao Enrique – esse mesmo, o Iglesias, aquele bonitinho mas com voz de cachorro desmamado. Li, não sei onde ― até sei, mas tenho vergonha de o dizer… ―, que o rapaz voltou a insistir recentemente que, passo a citar, “Se pudesse, mudava o meu pénis, porque é muito pequeno”. Se é ou não propaganda enganosa, não sei ― também convinha saber o que ele entende por “muito pequeno”, não vá eu e mais alguns largos milhões de homens andarmos enganados este tempo todo! ―, mas é preciso ter cojones para o repetir num mundo onde ainda impera a lei da fita métrica e a máxima “o meu é maior do que o teu”. A ser verdade, o rapaz deve saber, pelo menos, o que faz com o pouco que tem, pois da boca da Kournikova se sai um “ai”, nunca é para recriminá-lo…

Bom, já que comecei, perdido por cem, perdido por mil. Numa outra revista, lá está George Michael ― garanto-vos que não é quando vou cortar o cabelo que leio estas coisas; quem não percebeu a piada, que procure um post antigo onde apresento o Rui; acrescento apenas que o Rui não só se ajeita bem com a tesoura, como também tem umas mãos de fada e sabe fazer umas excelentes massagens no couro cabeludo; está-me a sair melhor do que a encomenda! Não fui ao concerto no mês passado, mas já sei que deixou a comunidade gay aqui do pedaço em êxtase. Pessoalmente, acho que o Jorge Miguel já teve melhor ar, mas com a vida que o rapaz leva, não admira. Última pérola do cantor: “O mundo seria um lugar melhor se mais pessoas fumassem haxixe”. Até é capaz de ter razão, mas eu tenho cá as minhas sérias dúvidas a avaliar pelas broncas que ele tem armado nos últimos tempos…

Parece que na Polónia só agora deram pelos Teletubbies. Querem suspender a série infantil porque andam muito desconfiados do que possa estar a fazer à cabecinha das crianças polacas (polonesas). Tudo isto porque o Tinky Winky resolveu aparecer de malinha encarnada na mão num dos episódios... Será que na Polónia ainda não ouviram falar em metrossexuais e não sabem que o roxo e o encarnado até estão na moda? Cá para mim, os produtores da série, em vez de andarem a passar mensagens encapotadas, deviam logo era escancarar que o bicho é bicha e ficava o caso arrumado. Com a febre do politicamente correcto, até os polacos da vida iam engolir em seco e “aplaudir” o carácter didáctico da iniciativa.

E se lhes faltarem ideias para fazer o Tinky Winky sair do armário em grande estilo, é só esperar pelo próximo álbum da Kylie Minogue. O produtor da cantora, Calvin Harris, anda a prometer o maior " tema gay pop" da história, pois, segundo ele, "Essa canção vai soar como se 500 homens tirassem a camiseta e mostrassem os seus corpos enquanto dançam. É sexy e erótico. E por isso será um grande tema do gay pop". Ao menos assim, o Tinky Winky ficaria mal falado, mas teria algum proveito. Porque, convenhamos, andar a rodar bolsinha por ai não está com nada.

Acho que já me enxovalhei o suficiente por hoje.

30.5.07

Doce de tomate


Todos os anos, por altura da última quarta-feira de Agosto, é certo e sabido que a população e vizinhança da localidade espanhola de Buñol, na comunidade valenciana, perdem, literalmente, a cabeça e, a pretexto das festividades de San Luis Beltrán, vai de arremessar toneladas e toneladas de tomates, transformando a Plaza Mayor numa verdadeira tomatada.

Pois bem, parece que a blogosfera foi acometida de uma loucura semelhante… Anda tudo por ai a distribuir tomates a torto e a direito. Brincadeiras à parte, para quem ainda não sabe do que se trata, eu explico: “Blog com Tomates” é o mais recente prémio destinado a distinguir bloggers que assumem posições e defendem, senão com mérito, pelo menos com reconhecida tenacidade, os seus pontos de vista. Para os brasileiros, tomates serão apenas tomates, mas se eu acrescentar que para nós, portugueses, são sinónimo de virilidade (testículos), então acho que se torna claro o porquê de se dizer a propósito de alguém corajoso, ou de alguma coisa (neste caso um blogue), que os tem (a eles, os ditos) no lugar.





Entendeu o caro Maurice, que já me havia antes atribuído o “Thinking Blogger Award”, colocar-me entre os seus eleitos para esta nova categoria. É claro que sou sempre apanhado de surpresa ― logo eu, que me acho indeciso, às vezes até cobarde, na forma como conduzo a minha vida… Mas, enfim, também não vou fazer doce. As ideias que transmito aqui, boas ou más, são as minhas e por elas assino em baixo. Sem mais delongas: muito obrigado, Maurice.

Desta vez não me vou furtar a uma das obrigações dos distinguidos, que é a de eleger outros cinco que, a meu ver, também mereçam ostentar um belo par de tomates. Tenho sempre imensa dificuldade em escolher uns em detrimento de outros, mas como já me facilitaram a tarefa, e muitos dos blogues que eu acharia poderem igualmente enquadrar-se na categoria já foram apontados, os meus eleitos são:

Poison (Pela irreverência, pela escrita criativa, pelo humor inteligente… e porque me identifico)
Manuel Braga Serrano (Por mais que mude de blogue, nunca se perde a pertinência da sua escrita)
Moura ao Luar (É mulher e não precisa de tomates para falar de forma aberta, e sem falsos pudores, sobre sexo)
Edu (Porque não manda recado por ninguém)
Manuel (Em matéria de blogues confessionais, e assumidos, foi o primeiro dos portugueses que li e de que gostei)

Os tomates estão agora na vossa mão. Façam bom proveito!

4.5.07

Roupa a lavar


If it makes you happy, it can’t be that bad!
(Sherly Crow)


Decido que estou a precisar de uma camisa branca mais informal. Vou à loja Pepe Jeans no Saldanha, no centro de Lisboa. Não me consigo decidir por uns modelos que acho demasiado justos no corpo (ler demasiado “abichanados” para meu gosto), mas logo dois empregados solícitos, um rapaz e uma rapariga (moça, ok?), decidem vir em meu socorro. É claro que querem ganhar a cobiçada comissão, mas noto ali um certo frisson no seu comportamento, confirmado mais tarde através de risinhos nervosos e de um ou outro comentário que intercepto entre os dois. Estou a agradar ao menino e à menina, e isso, por sua vez, agrada-me também ― afinal, sou um tipo comum que passa despercebido na multidão. Resolvo ser simpático. A ele deixo-o espreitar no provador enquanto estou a experimentar as camisas. A ela, quando estou a pagar, respondo à sua provocação quando me pergunta se o que trago pendurado ao pescoço é um MP3. Estendo-lhe um auscultador e deixo-a ouvir Ute Lemper. Desconfio que ela não sabe quem é, mas não faz mal. Saio de lá com uma camisa nova e com o ego afagado.

Entro no comboio (já vos disse que adoro andar de comboio/trem?) e procuro um lugar junto à janela. Estão todos tomados, pelo que escolho um ao lado de um rapaz jovem. Ainda antes de me sentar, ele vira-se. Aquele rosto é-me familiar. Já o vi antes. È um miúdo comparado comigo (não tenho tesão por miúdos muito mais novos do que eu, antes que se apressem a tirar conclusões), mas, como da outra vez em que o notei, não deixo de reparar que é bonito, com um ar tímido que me diverte. Também eu já fui (e ainda sou, até certo ponto) um miúdo tímido. Ele olha para mim de lado e eu retribuo o olhar (uma coisa muito soft, ok?, que não ando por ai a dar bandeira). Estamos os dois de auscultadores nos ouvidos. Quando sente o meu olhar, ele cora imediatamente e desvia a sua atenção para a janela. Fica assim até sair.

As voltas que a vida dá. Há uns bons anos, teria eu mais ou menos a idade dele, estudava em França e, num certo dia, um tipo estranho (nada a ver comigo, que tenho bom ar…lol) sentou-se ao meu lado no autocarro (ônibus). A dada altura, além de me lançar uns olhares esgazeados, começou a apertar-me contra a janela. Não tinha por onde me mexer, mas estava tão assarapantado que nem reagi (ah, se fosse hoje…). Felizmente, a minha paragem não tardou e sai apressado. Não sem antes ele se levantar para me deixar passar e me mirar da cabeça aos pés. Desci e segui até a um supermercado onde fazia compras. Pelo caminho, tive a sensação de que estava a ser seguido, mas não ousei olhar para trás. Entrei no supermercado, mas quando andava no meio dos corredores, vi a figura sinistra a olhar para um lado e para outro qual barata tonta. Tive a certeza, naquele instante, que andava à minha procura. Meti-me na fila para pagar. Acho que devia estar com suores frios. Por fim, ele avistou-me e chegou de mansinho. Estava hirto que nem um carapau. Como era o último da fila, ele teve a vida facilitada: encostou a cabeça ao meu ouvido e perguntou-me se queria ir beber um café com ele… Tinha 22 anos, sair ou dormir com homens estava fora do meu horizonte, e só consegui balbuciar um sumido: Je ne crois pas (não creio)... O homem evaporou-se tão rápido como apareceu. Eu acho que ainda fiquei a tremer uns bons minutos, perante o olhar incrédulo da senhora que estava à minha frente.

Enfim, lembrei-me da estória, mas é claro que não tem nada a ver com que se passou agora. Apenas gostei, confesso, de fazer o rapazinho corar. E revi-me nele, de certa forma.

Há por ai um mundo de possibilidades. Sinto-o. Mas é claro que insisto em manter-me encantado com um gajo que não sabe o que quer. Não anda nem desanda. Diz sim, mas é um sim frouxo, em cima do muro, a meio caminho para lado nenhum. Custa tanto assim dizer não? E se é sim que quer dizer, por que não assume e se deixa de merdas… Quem lhe deu já duas oportunidades, não lhe vai dar a terceira. Cansei. Vá para o Diabo que o carregue. E, já agora, eu também por ser um idiota e por continuar a escolher sempre os caminhos mais longos e tortuosos.

Bom fim-de-semana!

18.4.07

Dialectos do sexo


Estou-me a vir
e tu como é que te tens por dentro?
porquê não te vens também?
(Porquê, Caetano Veloso)


Hoje não me apetece falar de mim ― não directamente, pelo menos. Apetece-me antes falar da língua. Mas não se apressem a tirar conclusões erradas. Não me vou debruçar sobre os usos a dar a esse espantoso músculo móvel ― quem sabe um dia, num outro post. Estou a falar mesmo da língua enquanto sinónimo de linguagem.

Fernando Pessoa disse “A minha Pátria é a língua portuguesa”. Muitos dos brasileiros que visitam o meu blogue espantam-se pelas diferenças entre o meu português e o vosso, que passam não só pela gramática e pela ortografia, mas também pelas próprias expressões que um e outros utilizamos. Desde o princípio, assumi que queria ser lido por portugueses e por brasileiros. Gosto das duas culturas e sinto-me à vontade em ambas.

Respeito os “bloguistas” portugueses que dizem não se rever na realidade brasileira ― que é, de facto, muito diferente da nossa, e não só no que ao sexo diz respeito ―, e por isso não frequentam os blogues do outro lado do Atlântico, do mesmo modo que respeito os “blogueiros” brasileiros que não mostram interesse em (re)descobrir os portugueses para lá das piadas e dos clichés. Respeito, mas não partilho a visão de uns nem de outros.

Por razões que não vêm agora ao caso, conheço o Brasil razoavelmente bem e estou familiarizado com a sua gíria, por isso, sempre que posso e sei, não hesito em fazer “traduções” simultâneas nos meus posts. Parto do princípio que, como eu, há gente para quem o saber não ocupa lugar. Depois, confesso, sempre achei graça a essa coisa das expressões e das confusões que muitas vezes se geram entre quem, à partida, fala a mesma língua.

Poderia dar uma infinidade de exemplos no caso de Portugal e Brasil, mas como este é um blogue assumidamente sobre a (homo)sexualidade ― ao menos o blogue é, já o resto… passa à frente e, como vocês dizem, “abafa” ―, vou-me concentrar nas palavras que giram à volta do tema e que, todos os dias, andam avulsas nos vários blogues de um lado e outro do Atlântico. Procurei sinónimos que tenham o mesmo peso na forma como são popularmente empregues. Quem se lembrar de mais, é só dizer que eu acrescento ou corrijo.


No Brasil/Em Portugal
Michê-Prostituto
Cafetão-Chulo
Cacete-Verga
“Vou gozar”-“Estou-me a vir”
Bilau-Pirilau
Brochar-Perder a tusa
Sapatona-Fufa
Pinto-Pila
Pica-Piça
Rola-Picha
Bicha-Maricas
Viado-Paneleiro
Porra-Esporra
Chupar-Fazer um broche
Tomar no cu-Levar no cu
Galinha-Pinga-amor
Enrustido-Panasca
Pegar-Engatar
Pegador-Engatatão
Paquerar-Dar em cima

Suvaco-Sovaco

Saco-Tomates
Transa-Queca


Nota de rodapé: Convém esclarecer que em Portugal uma rapariga é, tão-só, uma moça, que um puto não passa de um moleque (mas atenção que puta quer dizer o mesmo nos dois lados do Atlântico), e que pôr-se na bicha, não é mais do que respeitar a fila. Por outro lado, que nenhuma Alexandra portuguesa tenha a triste ideia de usar o seu diminutivo (apelido) Xana no Brasil… As brasileiras, por sua vez, que não se fiquem a rir, pois se vierem para cá dizer que preferem ser chamadas de Cricas (diminutivo de Cristiana), vão receber o mesmo tratamento. E, já agora, sabem que a famosa bunda, palavra que os portugueses só conhecem de a ouvir na boca dos brasileiros, chegou ao Brasil com os escravos angolanos? Para finalizar, e a propósito da letra que coloquei no início deste post, ficam as palavras deliciosas de Caetano sobre as nossas diferenças linguísticas: "Acho bonita a maneira como, linguisticamente, os portugueses resolveram a questão do orgasmo. No Brasil, usamos o verbo gozar, como na França. Mas é como se estivesse acabando alguma coisa. Estou-me a vir é reflexivo, ou seja, fala de si próprio. E ainda dá uma ideia de continuidade".

9.4.07

Rosa-choque

Gerard Butler (Leónidas) e Rodrigo Santoro (Xerxes) em 300


Escolhi duas imagens, que são do filme 300, para servir um propósito: o de que um olhar não isento pode sempre distorcer o que vê ou, no mínimo, subverter o contexto e a mensagem a seu bel-prazer. Fui ao cinema sem grandes expectativas ― fiquei curioso com o que li sobre a banda-desenhada de Frank Miller, a qual foi adaptada ao filme, e sobre o facto de representar um passo (muito) à frente na digitalização e na computorização ao serviço da sétima arte (nem precisamos de óculos especiais para que as personagens saltem do ecrã como se fossem a três dimensões). Descansem. Não me vou aventurar no campo pantanoso da crítica, que há quem o faça com mais propriedade do que eu, mas não dei por mal empregue o tempo que gastei. Não será um grande filme, longe disso, mas vê-se bem.

Voltemos às imagens aqui postadas. Tenho ouvido por ai dizer que este filme possui, inequivocamente, um olhar gay. Quem já me leu antes, sabe que sou um pouco ― um pouco não, muito ― avesso a esse tipo de generalizações, pela simples razão de que não é por estar a deixar aflorar a minha (bi/homo)sexualidade que vou passar a enxergar com olhos de gay tudo o que me rodeia. Quem viu o filme, e olha para estas fotografias, que não são manipuladas (uma delas é, mas só por razões técnicas), pode, todavia, fazer esta leitura legítima: o duelo entre o viril Leónidas, rei dos Espartanos (interpretado pelo escocês Gerard Butler) e o ambíguo Xerxes (interpretado pelo brasileiro Rodrigo Santoro) ― sexualmente falando, pois mesmo com três metros de altura e um corpo trabalhado, há na sua imagem algo de deliberadamente feminino ― não é só bélico, há também ali uma tensão sexual (ilustrada na perfeição na cena acima).

No fundo, tenho para mim que Xerxes, mais do que derrotar Leónidas, queria seduzi-lo e trazê-lo para o seu lado, invertendo o papel tradicional em que o mais feminino se subjuga ao mais masculino. Ao mesmo tempo que inveja Leónidas, Xerxes deseja-o e só admite aniquilá-lo quando o outro não aceita submeter-se à sua vontade (desejo). Isto não está claro no filme, mas pode ser interpretado desta forma por quem assim o quiser entender.




Do mesmo modo, os que detectam no filme um forte conteúdo homoerótico, vão dizer que a grande maioria dos actores masculinos (pouquíssimas mulheres na trama, mas a rainha é belíssima), ou pelo menos aqueles em quem a câmara mais se demora, não foi escolhida à toa, mas sim a dedo para não fazer feio ― o que até faz sentido se tivermos em conta que os mesmos passam o filme inteiro semi-nus. Depois há também aquela coisa da camaradagem entre militares, que os gays gostam sempre (e muitas vezes com uma certa razão, admito) de perverter ― muito suspeitas certas praxes militares, muito duvidosas mesmo, mas passemos adiante que não estou aqui para falar disso…

Não sei se, por esta altura, já terei ou não desenvolvido uma sensibilidade gay ― bom, isto admitindo que existe, de facto, uma… ―, mas notei como curioso o facto de, mesmo tendo identificado a carga homoerótica do filme, não ter ficado em momento algum excitado com este ou aquele actor. Pode até ser que seja uma ideia pré-concebida minha, ou seja partir do princípio que os gays sempre ficam alterados quando vêem homens desejáveis. Se calhar, as coisas nem funcionam assim. Uma coisa sei, o meu não desejo não tem nada a ver com ainda estar amarrado àquela máxima bacoca de que um homem “de verdade” não sabe apreciar outro homem. Mesmo quando sempre me assumi como hetero nunca tive problemas em dizer se acho um homem bonito ou feio ― e nessa lógica, é claro que não fico indiferente, por exemplo, ao actor Gerard Butler, que acho, na boa, um homem bonito ―, mas, constatei é que o meu olhar ainda é mais de inveja do que de desejo.

Quero dizer: olho para alguns daqueles homens e não é desejo de possui-los (ou de ser possuído por eles, se quiserem) o que sinto, mas sim uma certa inveja dos seus corpos, da sua beleza. Uma inveja relativa, entenda-se; primeiro porque gosto de corpos definidos e enxutos mas não tipo armário como é o caso da maioria no filme (com músculos muito pronunciados), segundo porque mesmo estando muito longe de ser um Deus grego, também não sou nenhum estafermo (lol).

E já que os rapazes dão o corpo ao manifesto, não pude deixar de reparar noutra coisa: a ausência de pêlos (excepção feita às barbas e fartas cabeleiras). Quem conhece um pouco da história das várias civilizações, saberá por certo que a moda de eliminar os pêlos corporais não é uma coisa de agora. Inclusive nos homens. Imagino que os metrossexuais de plantão, conhecidos por serem partidários da depilação total ou parcial da pilosidade corporal, também se revejam neste filme. A estética dominante no filme é a de que os pêlos não fazem ali falta nenhuma.

Confesso que não tenho uma opinião formada sobre a depilação. Pelo menos não em relação à minha pessoa. Dou graças à genética por não ter saído um Tony Ramos, o que de facto não me agradaria de todo, pelo que me sinto feliz de não ter praticamente pêlos nas costas, no pescoço ou até mesmo nas nádegas (enfim, talvez vocês não precisem de saber tanto… exagerei na informação! Menos). Tenho pêlos nas pernas, nas axilas, nos braços, mas não me incomodam. A minha barba é cerrada e viveria bem sem ela, mas como me posso dar ao luxo de não me barbear todos os dias ― para desespero da minha mãe, que acha sempre, quando me vê com uma barba de três ou mais dias, que pareço, passo a citar, “um salteador de estradas”! ― não é por ai.

A minha dúvida é em relação aos pêlos do peito e aos púbicos. Passo a explicar. Gosto de ver pêlos no peito a quem os tem uniformes, o meu problema é que os meus, além de não serem em grande quantidade, também me parecem sempre irregulares e indomáveis. Já os raspei mais de uma vez, mas nunca me decidi a avançar para a depilação periódica. No fundo, fico balançado entre a falta de paciência necessária a uma manutenção desse género e o facto de achar que não tenho um torso suficientemente definido (acho, outro preconceito meu, que um peito liso pede um torso definido).

Há uns tempos, li um artigo na revista Wallpaper* (querem revista mais metrossexual?) sobre uma técnica que está a fazer furor nos salões de beleza masculinos, uma tal de manscaping, e que consiste em eliminar selectivamente os pêlos masculinos. Por outras palavras, os homens eliminam os pêlos que têm em excesso (ou por completo) em certas áreas e “domam” os que ficam, o que pode passar por os pentear com gel, dar-lhes uma coloração diferente ou, inclusive, criar manchas de pêlos com formas mais harmoniosas. Vejam o exemplo que vinha na revista:




No que toca aos pêlos púbicos, a coisa pia mais fino. Associo sempre a imagem de homens sem pêlos púbicos aos actores porno. No meu caso, está fora de questão. Gosto de ver pêlos acima do pau, mas os tomates (saco) a descoberto. É uma preferência pessoal. Já me aventurei nalgumas experiências, mas, uma vez mais, esbarrei na preguiça e, digamos, numa certa falta de técnica. E fico por aqui, que isto é um blogue em tom confessional, mas também não convém abusar.

Na mesma edição da Wallpaper, li ainda que as famosas irmãs brasileiras JSisters ― que colocaram as nova-iorquinas a depilarem-se como as brasileiras, no estilo minimal brazilian bikini wax ― perceberam que os homens também estavam abertos a dar uma arejada no andar de baixo e, vai daí, criaram a depilação brazilian sunga wax. Na gíria da moda, a mesma também ficou conhecida como BSC, ou seja Back (costas), Sac (escroto) e Crack (rego do rabo, a expressão é feia, mas não me ocorre outra agora, sorry).

Paneleirice (viadagem) ou não, a mim, chamem-me antiquado, o que me incomoda mesmo é visualizar a cena. Não sou um pudico, mas entregar assim de ânimo leve as partes mais recônditas do meu ser nas mãos de um(a) estranho(a), não me parece lá muito boa ideia. Além de que deve doer como o ca-ra-lho! Todos nós temos os nossos limites.

Desafio os meus amigos bloggers a manifestarem-se. Dêem a vossa opinião. Com pêlo, sem pêlo, o que preferem? E faz ou não diferença na hora da verdade?

Vou encerrar este post com a certeza de que me estiquei um pouco ― lá cai por terra a minha fama de intelectual (lol).
Sinto-me como aquela personagem da série
Will and Grace, um recém-gay com imagem de sapo que Will e Jack se encarregam de transformar em príncipe, e que, depois de muitos falhanços, leva ao delírio os seus mestres quando, finalmente, comete três princípios sacrossantos que nenhum gay que se preza menospreza: querer ter um corpo acima das suas reais possibilidades, gastar mais do que deve numa peça de roupa e suportar sacrifício físico em nome da beleza. Bom, neste post já invejei os corpos dos actores de 300; de certeza que já gastei (e não só uma vez…) mais do que devia em roupa; quanto a sacrifícios, lembro-me agora de umas botas Prada que, há uns anos, comprei em saldos ― uma delas apertava-me o pé, mas aguentei estoicamente mais de um mês até ela se moldar, tudo porque as achava o máximo!
E depois desta tirada, que me faz corar de vergonha, retiro-me de fininho…

28.3.07

Xeque-mate


What a wicked game you play
To make me feel this way
What a wicked thing to do
To let me dream of you
What a wicked thing to say
You never felt this way
What a wicked thing to do
To make me dream of you
(Wicked Game, Chris Isaak)


Para que não julguem que sou um tremendo chato, um tipo atormentado por dúvidas, mergulhado em incertezas e apenas preocupado em esmiuçar tudo ao mais pequeno detalhe ― já pintei um quadro suficientemente sinistro da minha personalidade? ―, hoje vou escrever um post mais lúdico.

No amor, mas sobretudo no sexo, gosto de jogos de sedução. Só não gosto de jogos onde não conheço as regras. Dispenso igualmente os que tendem a prolongar-se indefinidamente. Ai, canso-me rápido e perco o interesse. O jogo do gato e do rato, por exemplo, tem os seus encantos, não o nego, mas não é excepção. Há um tempo certo para ser jogado. Parar no momento certo é uma arte que poucos dominam. Eu, inclusive.

A minha predilecção por jogos de sedução tem a ver, provavelmente, com o facto de gostar de me sentir desafiado, espicaçado, estimulado. Não gosto de facilidade. Posso até gostar de pessoas fáceis, mas ai já vai depender muito das pessoas em questão e do adiantado da hora.

Os jogos sem contra-cena são menos interessantes. A cantiga do bandido não é para mim. Nunca tive grande jeito para “dar em cima”. Por um lado, falta-me a persistência e, mais do que isso, não consigo libertar-me do sentido de ridículo. Se calhar estou a ser parvo, mas o que querem, para mim todos os engatatões de serviço (paqueradores), além de lata, têm uma tremenda falta de sentido do ridículo. Só assim compreendo que não sintam vergonha das barbaridades a que recorrem quando querem “levar água ao seu moinho” ― recordo-me sempre de amigos, versados nessa matéria, e de os ficar a observar, atónito, a dar conversa a certas mulheres. Talvez por ser também homem, acho sempre a “cantada” do mais óbvio possível, mas o certo é que a grande maioria das mulheres embarca mesmo nessa “conversa para boi dormir”!

Reconheço que sou preguiçoso e cobarde no acto da conquista e isso é fatal. Prefiro que se dêem ao trabalho de me tentar seduzir, assim, além de não arriscar a rejeição, ainda me posso dar ao luxo de ser eu a ter a última palavra. Okay, admito que não é muito nobre da minha parte… Mas também nunca disse, façam-me o favor, que era, ou que queria ser, perfeito.

É por isso que gosto do jogo do gato e do rato. Em princípio, os papéis estão bem definidos, mas nada impede que, a dada altura, não se invertam. E mesmo que não, todos sabemos que um rato esperto pode fazer a vida negra a um gato.

Até hoje só joguei este jogo com mulheres. Minto. Joguei-o uma única vez com um homem. Mas a coisa não correu bem. Quer dizer, até começou bem, com as devidas provocações mútuas, o toca-e-foge, as insinuações, um a querer levar a melhor, o outro a não querer levar a pior. Só que, lá está, o jogo prolongou-se para além do recomendado e quem queria ganhar, não ganhou. Quem não queria perder, não perdeu. Nada pior para o jogo do gato e do rato do que terminar num impasse.

No caso em questão, o jogo emperrou na falta de vontade de um em continuar a jogo e na frustração do outro por não saber mais o que fazer para se manter no mesmo. Cancelada a partida, para salvar a face, os dois jogadores voltaram a ser apenas dois homens. Não mais cúmplices, mas dois machos em competição. Cada um a demarcar o seu território.

Agora estou a aprender a jogar noutro plano, ou ainda ninguém reparou que muitas das conversas com estranhos no msn não passam disso mesmo, de jogos do gato e do rato? Quem fará xeque-mate?

23.3.07

Preconceito


I searched for acceptance,

Procurei ser aceite,

Only to find prejudice.

Mas só encontrei preconceito.

(Man’s Rule, Talmadge Rogalla)


Desenganem-se. Não vou falar do preconceito dos outros em relação aos gays, lésbicas, bissexuais e todos aqueles que escapam à arrumação na dita “padronização” sexual. Vou falar antes do ENORME preconceito que tenho notado existir dentro da comunidade gay a avaliar pelas coisas que tenho lido na blogosfera.

Por estar mais fora do que dentro, consigo ainda manter, julgo, uma certa distância, o que me permite captar coisas que, se calhar, quem vive essas situações no seu quotidiano já aprendeu a aceitar como “normais”. Admito que me estou a aventurar num tema polémico, quase movediço, e que corro o risco de ser mal interpretado por muitos, mas é o que eu acho até alguém me provar o contrário ― não gosto de dar o braço a torcer, mas dou quando percebo não ter razão, não se preocupem.

Para início de conversa, faço logo a minha expiação. Sim, tenho preconceitos a este respeito. Um exemplo? Não me vejo a dançar com um homem. Outro? Dois homens debaixo do mesmo tecto, acho difícil (não é impossível, eu sei). Posso ainda acrescentar, mesmo correndo o risco de ser politicamente incorrecto, que sinto desconforto em relação aos travestis e bichas muito espaventosas (nada a ver, não fazer confusões, com negar-lhes o direito ao respeito e à dignidade humana, que isso não nego a ninguém); que me afligem os gays que se tratam entre si no feminino; que não me identifico com os gays que se tornam autênticos predadores sexuais, todas as noites à procura de uma presa diferente e quase sem critério que não seja o de iludir a sensação de vazio; que me causam estranheza aqueles que parecem ter por único objectivo na vida “malhar” muito no ginásio (academia) para não fazer feio na próxima parada ou na hora de tirar a camisa numa boate.

Poderia ainda apontar mais um ou dois, que agora não me ocorrem, mas já deu para entender que eu não me coloco acima de suspeita em matéria de preconceito ou de ideias pré-concebidas. Tenho os meus telhados de vidro, sim. Quem quiser, atire a primeira pedra.

Gostaria de dar exemplos de coisas concretas que li na Net, e que me têm surpreendido pela negativa, sobre a eterna questão activo versus passivo, mas não seria correcto eu citar aqui nomes (ainda que virtuais) nem apropriar-me de textos sem ter antes falado com os visados. Vou por isso falar em termos gerais.

Para mim, a questão do activo/passivo ainda é (muito) complicada ― à partida, é-me avessa a ideia de penetração por outro homem, o que tem a ver, admito-o frontalmente, com uma postura machista que nos é incutida desde crianças ―, mas uma coisa já sei de antemão: da mesma forma que nunca procurei ser superior ou dominador com uma mulher, que nunca vi nem vejo como um ser submisso ou passivo no sexo, também tenho para mim que, no dia em que me decidir a estar com outro homem, vai ser na base da igualdade; ou seja, só vou querer estar com alguém que se sinta bem na sua pele de homem e que me aceite e veja da mesma forma. Sem essa de um a fazer de “mulherzinha” ou de “putinha”, como já li por ai, tantas vezes, vários “activos” ― e não falo apenas dos bissexuais, que esses até se entende o porquê da cisma, falo sobretudo dos que se relacionam só com homens ― descreverem as suas quecas (transas) com passivos. Acho esse tipo de associações não só ofensivo para as mulheres, reduzidas à mera função de proporcionar prazer ao macho, como para os próprios parceiros.

Então, como é: uns são maricas (bichas) e os outros não? Nessa lógica, devo partir do princípio que quem come e não deixa que toquem no seu rabo (bunda) nunca deixa de ser macho, já o outro, o que aceita ser comido, passa a ser a gueixa, o submisso e fica desprovido de masculinidade, é isso?

Tenham santa paciência, mas, para mim, isso é um tremendo de um machismo. Quero deixar claro: o que me choca não é que haja gays que só queiram ser activos e outros só passivos. Nada disso. Estou consciente, agora ainda mais, que, entre quatro paredes, desde que seja consensual, tudo é válido ― aliás, a este respeito, o Luciano, que é um miúdo (garoto) muito lúcido, já me deu uma lição que procurarei não esquecer ―, mas não aceito esse tipo de discriminação de ânimo leve.

Se calhar, não digo que não, estou a fazer juízos de valor errados ou precipitados, mas também já vi outros indignarem-se pelos mesmos motivos, pelo que não devo ser o único a achar isto ― já li igualmente que muitos passivos gostam da sensação de serem dominados e até se sentem excitados quando os seus parceiros, no calor do momento, lhes chamam nomes. Tudo bem, não me revejo nesse quadro, mas aceito perfeitamente, lá está, porque é algo consensual e não quer dizer que não haja carinho, ou no mínimo respeito pelo outro, envolvido.

Agora duvido, mas duvido mesmo, que alguém, neste caso um gay que não deixou de se sentir homem por ser passivo ou por ter sido passivo num determinado momento, goste e aceite que o seu parceiro, mais ou menos casual, quando confrontado com a pergunta, hipotética ou não, da inversão de papéis reaja com violência, quase asco: “Ser enrabado, eu? Nunca. Sou macho”.

Estou a fazer uma interpretação deturpada? É possível. É possível que ainda esteja a ver o mundo gay e os seus códigos de conduta por um olhar heterossexual, mas, o que querem, causa-me espanto. Quer dizer, nem tanto, pois, ao fim e ao cabo, a grande maioria dos homens, gays ou não, é educada com valores machistas, logo, é natural que continuem a ser machistas mesmo quando, ou sobretudo por isso, se relacionam só ou também com outros homens.

O que me leva a concluir que a necessidade de rotular e o preconceito não são exclusivos dos que vivem dentro do que é, tradicionalmente, aceite como “normal”. Eles também existem entre os que vivem à margem do sistema e podem ser tão, ou mais (em alguns casos), cruéis.

Que venham as pedras!